quarta-feira, 19 de junho de 2013

(...) passe livre o movimento



Escrevi um pequeno texto nos idos de 2011 que faz conexão com os dias de hoje: É nas esquinas que algo acontece, não acontece, está para acontecer.” e podemos dizer, está acontecendo. Naquela ocasião eu poderia ter incorporado o bordão “Imagina na Copa”, mas eu não seria capaz de imaginar tampouco de prever a força dos acontecimentos recentes no Brasil. Para além/aquém da imaginação estamos acompanhando uma crescente multidão a caminhar pelas ruas, ocupando vivamente as esquinas, os viadutos, as praças, as sacadas dos prédios e até o Congresso Nacional em BrasíliaEste mesmo Congresso que costuma abrigar os nossos representantes políticos – aqueles que há muito já não nos representam – deu lugar na noite da última terça-feira a uma dança de sombras alegresque me lembrou justamente a força que emana do quadro A Dança de Matisse.


Da primavera árabe ao movimento dos Indignados espanhóis, chegamos ao outono no Brasil e que bela estação! Em meio à frieza da Copa das Confederações e seus absurdos, foi produzido um imenso calor proveniente do suor de centenas de milhares de participantes que estão comparecendo dia após dia às manifestações de rua no Brasil e no exterior. Estes se somam aos milhões que conversamsob os efeitos desses acontecimentos, em suas casas, no trabalho, pelos botequins, e/ou interagem pelas ditas redes sociais que se propagam pela Internet. O Twitter e o Livro das Rostidades (Facebook) se tornaram plataformas para debates acalorados e para o agendamento de encontros relacionados a toda essa movimentação. É muito interessante perceber e participar do efeito dessas manifestações de rua por todas as esquinas, inclusive as que também são digitais. Aliás, pelas esquinas digitais é possível acompanhar os relatos em tempo real, as imagens fotográficas e de vídeo, que ampliam a discussão e as análises sobre o que está acontecendo e desafiam o alcance do discurso dos aparelhos de grande mídia.

Não se trata de dizer “O gigante despertou”, mas de dar passagem ao devir minoritário da multidão e a ele se juntar pelas ruas das nossas cidades em um desfile de multiplicidades, empunhando cartazes provocativos, ecoando uma polifonia de cânticos em que inclusive se ouve por vezes até o Hino Nacional cantado a plenos pulmões, o que desencadeia as mais diversas reações.

Tal como os acontecimentos de 1968 do maio francês, ou as manifestações de Seattle em 1999, é difícil saber a origem exata e os agenciamentos desse movimento, cuja multiplicidade de raízes não hierarquizadas se alastra por todos os cantos, desenhando linhas dotadas do mais belo caos.

Pelas manifestações podemos notar os que caminham mais à direita ou mais à esquerda, os que irrompem pelo centro, há os gritos de “Sem violência!”, e também vandalismo, há sorrisos provocativos e também respostas truculentas. Essa mistura tem seus riscos, mas a passividade consegue ser ainda mais perigosa.

Passe livre o Movimento Passe Livre que da oposição ao aumento no preço das passagens de ônibus, sugerindo uma discussão mais ampla sobre o valor da mobilidade nas cidades e o direito de ir e vir e de protestar, se une a outros bandos que condenam os usos inadequados do dinheiro público e a precariedade do nosso sistema de saúde, e os que estão insatisfeitos com a classe político-partidária, entre outras tantas reivindicações.

Aonde esse movimento vai chegar?

Isso, vamos ver ao longo da caminhada, que segue sob o cheiro do vinagre, na escuridão da cortina de fumaça do gás lacrimogênio, em meio ao spray de pimenta e às cacetetadas da polícia e suas balas de borracha docilizantes. Mas, algo já foi demonstrado, que fôlego também há, para caminhar, cantar e produzir transformações.

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