sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Quando a crítica cai do palco: para ser lido tal como blocos de aforismos



... como amigo dos estóicos, tal como você, amigo Jason, não vejo muita utilidade em fazermos desta enriquecedora troca de posições um debate. Mesmo porque, não sei se os camaradas que atravessam este blog concordam, mas tenho a impressão de que a última coisa que se pode esperar de um debate é a troca de posições. No geral, em um debate, as posições entre debatedores são mantidas desde o princípio (rs.) cristalizadas, sacralizadas, absolutas, sedentárias... de tal forma que talvez não devêssemos perder o nosso tempo acompanhando debates, pois o final já está dado, desde sempre. Oh, pobre exercício do pensar, quando nestas condições limítrofes!

Prefiro os diálogos e as conversações.

Minha primeira posição aqui é uma lembrança, meio avariada, de uma frase, cujo crédito dou ao escritor irlandês Oscar Wilde e que nos diz o seguinte acerca de um tipo de crítica pouco rara: "O crítico é aquele que sabe o preço de tudo e o valor de nada.". O crítico e sua crítica servem no mais das vezes para formar opiniões. E qual o valor de uma opinião? Vai saber... mas a precificação oriunda de uma crítica, tendo em consideração as opiniões por ela formadas, pode render alguns preciosos vinténs. A crítica e seu exercício fazem parte do plano imanente em que o mercado também está integrado. E as opiniões formadas e deformadas pela crítica neste caso tendem ao homogêneo e costumam colocar a marchar um monte de indivíduos formatados tal como blocos de massa, numa dada direção ou n’outra.

O pacto semiótico, ou o baixar de guarda do pugilista que nos atravessa, quando colocamos a mão e debruçamos nossos olhos sobre um objeto de arte e o recebemos em fruição estética, afectiva, libidinal, etc, tem a ver com a crítica que assimilada naquele instante nos abriu as portas da percepção e nos permitiu aguçar nossas sensibilidades para aquele encontro. Sendo bom ou mau encontro, se algo ali aumenta ou diminui a nossa potência de ação, eis algo com o qual nos ocupar, eis o que está em jogo, tal como nos sugere Spinoza. Pois há críticas que guardam pactos com o lamento e a fomentação de paixões tristes e críticas que cortam um fluxo para liberar outros fluxos permitindo-nos um novo posicionamento que pode aumentar a nossa potência de ação.

É evidente que há críticos e críticas em número avantajado e crescente a dispararem suas impressões nos mais variados sentidos. Há aqueles que são críticos de ofício, que parecem ganhar comissões financeiras sempre que conseguem criar uma polêmica aqui ou acolá. Estes, que buscam as posições mais polêmicas de uma crítica, geralmente, apenas pela crítica, tal como se fosse um esporte, o fazem almejando as raspas do brilho oriundo dos holofotes que iluminam aquele ou aquilo que é alvo de suas críticas.

Também não sou daqueles que terminam uma conversa acerca da crítica dizendo que esta é na realidade tão somente fruto imediato de frustrações e ressentimentos de um crítico (e.g.: Um artista frustrado = um crítico de arte), não acho que se trata no caso de uma equação tão exata e simplista.

Veja o caso de Caetano Veloso que neste mês emitiu críticas pesadas ao Presidente Lula e ao cineasta Woody Allen. E olha que sou um dentre vários que aprecia este cantor e compositor, ao mesmo tempo em que sinto uma enorme preguiça de suas frases soltas em tom de crítica aparentemente inconseqüente e apressada. Penso que um critério que pode nos ajudar a pinçar as críticas interessantes frente às meramente despontencializantes pode ser a pressa. Quando uma crítica é feita às pressas, no geral não é difícil de se detectar, pois costuma faltar consistência enquanto sobram farpas e acusações no mais das vezes de cunho pessoal. Vale lembrar também que este artista esteve envolvido em algumas polêmicas quedas este ano: duas do alto de palcos bem no meio de suas apresentações musicais, além de uma vertiginosa queda de popularidade afectiva após suas recentes declarações contra uns e outros por aí.

É possível pensar que alguns críticos sofram de qualquer tipo de problema de visão, agravada por um pouco de astigmatismo ou de miopia, pois a crítica tem relação íntima com a distância que se estabelece entre crítico, crítica e aquilo/aquele que é objeto de crítica.

Sobre distância, ninguém melhor do que Blanchot, e acerca da crítica literária, podemos evocar este mesmo intercessor que você citou junto com Zizek, Klossowski, e aqui acrescento também Barthes e poderia elencar outros mais. Este tipo de crítica costuma nos apresentar problematizações consistentes, a partir de questões pertinentes, operando cirurgicamente em meio a intercessões, produzindo novas possibilidades e ampliando nossos universos referenciais. São críticas oriundas das ruminanças que nos remetem a Nietzsche e ao pensar que demanda tempo e experiência. Se a pressa é inimiga da crítica consistente, as velocidades para a produção de consistência em uma crítica podem ser lentas ou rápidas, sem deixar de serem velozes.



Da série: Diálogos, não debates, pela blogosfera: mais um texto que escrevo em resposta a outro post do meu amigo Jason Manuel Carreiro em Não há pensamento raro

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