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terça-feira, 19 de abril de 2011

Um ônibus para a tristeza.

Dei sinal, entrei, e de repente um movimento, a mesma linha daqui a acolá, partiu da alegria para a tristeza. Um ônibus para a tristeza, a escolha é sua, “para” sem acento pode ser uma preposição e pode ser um verbo. Uma liga ao outro, outro corta um fluxo, um movimento que é sempre daqui a acolá.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

in_visível*


Invisível, tanto faz... se desfaz, ou melhor, faz e desfaz e se perde. Foge e aparece em outro lugar. Desaparece, movimenta e pára. Você acha que viu e como num piscar de olhos, você já perdeu de novo. Tentou agarrar e escapou por entre os dedos. Você sente, mas não tem o menor sentido. “Just 'cause you feel it doesn’t mean it’s there. We are accidents waiting to happen.”** O imperceptível, característica comum da mais alta velocidade e da maior lentidão. Encontro de corpos que se chocam, cujas linhas, em fluxos, se cruzam transversalmente. Perder o rosto. Quais as linhas que compõem um rosto? Perca o rosto! Em um rosto tantos segredos. “Tudo o que se torna é pura linha que cessa de representar o que quer que seja.” (DELEUZE; PARNET, 1998, p. 145)***. Dar sentido(s), e mesmo assim, é quando o sorriso não tem gato, de Carroll, que o homem pode tornar-se gato, no momento em que sorri.

-Qual o invisível que me atravessa?

Atravessa e não atravessa... circunda, faz um contorno flexível criando forma e de repente se deforma. Entra pelos poros da pele e sai. Atinge outros órgãos fazendo-os funcionar de forma diferente. Ou parar de funcionar completamente.

Uma nuvem multiforme... parece carneirinho, parece floco de algodão, mas é de outra natureza. Aliás, ali se tem um encontro de naturezas bem diversas. Em estados que se modificam, em temperaturas que oscilam e velocidades que se alternam. Choveu e o gás tornou-se um líquido que evaporou. Não é só água, é mistura. Impuro, incerto. Cai e molha, e escorre, e seca. As crianças fazem festa, os fazendeiros comemoram, e de repente o excesso e a enchente. É bom e é ruim, ou nenhum dos dois. É belo, e depois... “O que é, o que é? É invisível e me atravessa...” Me atravessa e vem de fora, e está dentro. É tanto meu quanto seu. Por outro lado, não nos pertence... nos compõe e decompõe. Uma explosão de afectos, mas não só isso, ou melhor, não é só disso que é feito. Qual o efeito? E para que serve?

O invisível que me atravessa, eu não vi. Você riu? Pois é... digno de embaraço esse traço de estilo, componente de subjetivação. Pergunte ao fulano, do que se trata. Uma resposta. (Parece ser mais fácil para um outro enxergar e dizer. Pois com meus próprios olhos, me ver, é impossível.) Pergunte ao cicrano. Outra resposta. Sou capaz de uma aposta: Se é invisível, ninguém sabe, ninguém viu. Parece cena de periferia: “Tá lá um corpo estendido no chão!”. E de que afectos ele é capaz? Pois mesmo morto ele promove afectos. Estou certo?!

O invisível tem cheiro? Tem sabor? A saber, em um encontro qualquer, em um lugar sem endereço, uma aliança. Unem-se corpos que depois se separam clandestinamente. Homem? Mulher? Tanto faz. Um bando. Ah! Assim diz o clichê: “A revolução não será televisionada”. Será? E para onde eles foram? E o que restou? Acontecimento fugaz e duradouro tal qual a eternidade. É como uma noite estrelada, você enxerga o astro que não está lá. A imagem permanece, mas ela não é. Mas suas linhas de brilho lá estão. Aqui e acolá, a nos iluminar. Você segue o rastro da luz com a qual estabelece intercessão. Alguém diz: “Hum! Gosto de você” – E continuo sem saber que gosto tem. Se é salgado, se é doce...

O invisível tem som? É palpável? Talvez seja tão sutil quanto um grito e assaz perturbador, como um sussurro. Um toque por debaixo da saia da menina, um chute na canela por debaixo da mesa. O invisível caminha sobre a pele como uma formiga. Uma não, várias... em linha. Fazendo cócegas.

- Eis um rosto: bravo, manso, alegre, triste... povoado de invisíveis.

Seguir as pegadas de um bando que atravessa o deserto. A brisa vem e apaga os registros, as marcas de pé, pata e pau que riscaram a areia escaldante. O calor é intenso e o ritmo das passadas preciso, pois um oásis com água e alimento e descanso é a próxima parada. Mas onde está esse paraíso necessário à preservação da vida? Não se sabe... se chega. Todo o cuidado é pouco, pois há miragens por todos os lados e a imensidão clara é de cegar os olhos.

*Texto escrito e anteriormente postado 19/09/2005 por rfelipe em (Old)deluxxxnomadology.
**Extraído da música “There, There” do álbum “Hail to the thief” – Radiohead – 2004.
***DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Diálogos. Trad. Eloísa Araújo Ribeiro. São Paulo, Editora Escuta, 1998.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Rizoma, no princípio era o verbo


Noite dessas, numa aula em que trabalhamos a noção de Rizoma de Deleuze e Guattari...
fragmentos de uma degravação...
velocidades da fala, do gesto, aqui em letras,
palavras soltas de RFelipe, sob a inspiração de um punhado de intercessores.
outubro de 2009 - PUCMINAS
"Um rizoma começa pelo meio, se nasce, nasce de uma ruptura, de um fluxo que cortado dá vazão a outros fluxos que jorram aqui e acolá. Não parte em busca de uma origem, não persegue um falso problema, pois este não permitiria o engendramento de um rizoma, de suas linhas em atividade contínua. Aliás, Henri Bergson, filósofo francês, aquele mesmo que segundo Deleuze afirmou a intuição enquanto o método por excelência da filosofia, nos ensinou a importância de distinguirmos os falsos dos verdadeiros problemas. O que é um falso problema? É o tipo de problema que nos paralisa, não permite movimentos, embora haja gastos de energia vital e a noção errônea de que estamos avançando. O verdadeiro problema é aquele que nos atravessa, nos impulsiona, nos põe em movimento. Já discutimos o quanto um corpo é importante no processo de pensar, pois acreditamos que pensar se dá através do corpo em meio a outros corpos, não dentro ou fora do corpo, mas através do(s) corpo(s). Pensar e suas visceralidades... também não acontece apenas dentro da cabeça ou exclusivamente dentro de um cérebro. Precisamos nos lembrar aqui daquele que costuma ser celebrado como um dos pais da subjetividade moderna, Descartes, e o artifício da glândula pineal. Na época de Descartes era necessário apontar onde o pensamento reside, onde se aloja, onde acontece... havia muita pressão da comunidade científica, não menos do que nos dias de hoje. Pensar se dá mundo afora através do que pode um corpo. Também discutimos que pensar não é a mais fácil das atividades humanas, tampouco a mais freqüente, embora tão comum. Sim, pensar é algo comum, tal como deveria ser todo exercício cotidiano, porém muitos de nós pensam que pensam - o que não deixa de ser um pensar - embora mais afim com as possibilidades diminutas de se entreter com um falso problema. Para pensarmos nos é necessário um problema, tanto melhor quando se tratar de um verdadeiro problema. Pensar não é algo que se dá distante das forças em jogo, em tensão, em uma Vida. Vamos pensar a distinção entre o beijo e o ato de beijar inspirados nos estóicos. No beijar não há beijo, há saliva, carne, lábios, dentes, libido, desejo, mas beijo... não há. Beijo é uma noção estática, sedentária, cristalizada... mera representação, captura do movimento de beijar. O mesmo pode ser dito acerca do pensar: no pensar, então, não haveria pensamento. Ao menos não o pensamento tal como um bloco estático, propriedade privada, um já dado à espreita nas esquinas. Como se fosse mesmo possível dizer: o pensamento de Kant, o pensamento de Hegel... “Aqui está o pensamento de Kant, coloque-o no bolso!”; “Aqui está o pensamento de Hegel, segure-o bem firme nas mãos!”. Não deveria, pois, haver pensamento enquanto categoria estática, sedentária, mero produto... pensar tem mais relações com um processo, às vezes errático. Com o rizoma é a mesma coisa, só há rizoma quando se trata de conexões em movimento. O rizoma não é uma estrutura, tampouco uma função... o rizoma é um funcionamento, ou melhor, um funcionar, que pode se dar de maneira avariada, incompleta, randômica, nômade. Das conexões, podemos dizer que este princípio não se dá isolado do princípio da heterogeneidade, junção entre inusitados, entre diferentes, entre absurdos, entre singularidades que compõem em seus agenciamentos todo um rol de multiplicidades entre lógicas que de tão distintas fazem às vezes de ilógicas, a-significantes. Pois quando estamos diante de algo cujo padrão não fomos capazes de mapear, prontamente dizemos que tratar-se-ia de algo ilógico, não damos o braço a torcer, defendemos a todo custo nossas vaidades de expert. Não somos humildes o suficiente para reconhecermos a nossa incapacidade de mapear todas as lógicas. Daí a necessidade de um cartografar, que ao contrário de um mapa que representa um todo estático, nos exige um lançar-nos em meio a linhas de toda sorte. A cartografia, tal como nos sugere Rolnik, é um exercício dinâmico, orgânico, em que traçamos as linhas de uma paisagem no instante mesmo que elas se diferenciam. O heterogêneo nos cerca, nos desassossega... neste instante o que é heterogêneo para você?"