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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Nós, um pronome (ainda) perigoso


"I believe in miracles, I believe in a better world, for me and you.” – Ramones

Nossos dias e seus desafios, ou melhor, nossos desafios.


Nós, quando foi a última vez que você evocou este pronome? Ou quando vai ser, de fato, a sua primeira vez? Sim, quando vai ser a sua estréia? Que seja agora, pois há urgências em demasia, espalhadas por toda parte, rondando as esquinas.


Somos convocados pelas urgências de cada esquina, a cada passo, a cada fôlego, podemos aceitar nos implicar com estes desafios que a partir de nossa decisão se tornam nossos e fazer micropolítica, ou não. Eis uma escolha que não permite neutralidade - "A neutralidade é verde, a tristeza é azul e a alegria é vermelha." Os desafios são nossos, ou se tornam nossos na medida de nossas implicações. Implicações, tal como os institucionalistas franceses, e destaco aqui especialmente as contribuições de Lourau e Lapassade, definem este termo, levando-nos a fazermos cotidianamente a análise de nossas implicações. Naquilo que no âmbito individual e também coletivo nos atravessa, nos mobiliza, nos move, nos comove, nos paralisa, nos subverte, nos desassossega, etc.


Nós, pronome raro em sua força, não tão raro em sua freqüência de utilização. Mais mal tratado no dia a dia do que utilizado no grau máximo de sua potência, naquilo que o “nós pode”. Nas muitas oportunidades em que é evocado, isso se faz de modo no geral tão banalizado, que no mais das vezes, quando me incluem nesse coro, eu corro e prefiro ficar fora. Se utilizado de maneira apressada, o nós, tal como um nó frouxo, serve apenas para agrupar um amontoado de indivíduos e suas vaidades.


É que já experimentei os riscos deste pronome perigoso e não quero ser envolvido quando envolvimento não há. Nós, o pronome perigoso, como Richard Sennett bem ressaltou em seu livro “A corrosão do caráter: conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo”, pois pode nos permitir acionar e conectar as raras forças de resistência de um coletivo, no sentido de invenção de modos de Vida em comum, daquilo que advém das alianças capazes de fazer de um lugar uma comunidade.


É nesse sentido que eu acredito em milagres, acredito num mundo melhor para nós todos. E do milagre podemos criar uma utopia ativa.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Afirmando o devir dos dias de hoje


“De que amanhã...”, frase de Victor Hugo, que dá nome a um livro assinado por Roudinesco e Derrida, servindo-lhes de pretexto para que os dois disparassem a argumentar acerca de questões, as mais diversas, que atravessam e compõem os nossos tempos, com a urgência do hoje, a definirem o porvir. Nossos tempos? Ou estaríamos imersos no exagero da flexibilidade de tempos que já não nos pertencem mais, palco de um conflito sem fim entre Cronos e Aion, que Sennett tão brilhantemente soube problematizar em seu livro “A Corrosão do Caráter”. Tempos que já não nos pertencem ou jamais nos pertenceram, tal como a placa de bar “fiado só amanhã”. Ou tanto pior, tal como em James Bond 007, “O amanhã nunca morre”, frase que bem serviria de slogan para o cenário apresentado por Foucault em sua análise das Sociedades de Disciplina, em que não se termina nada, os processos são abandonados sempre inacabados. Sinto também, como muitos de nós, o mal-estar e a ansiedade em meio aos embates de forças entre regimes de tempo que se atualizam relacionados ao desajuste frente às expectativas em tensão, às promessas e à preguiça (inimiga mortal do bigodudo do martelo), geradores de ressentimento e de má consciência. Tempos que para chamarmos de nossos precisam ser conquistados, roubados, produzidos, comprados, consumidos, exauridos em meio aos contra-tempos (que são modos de ruptura, bolsões de tempos intensos, lufadas de ar, brechas para o pensar-sentir, para o advir de experiências, tal como nos sugerem os aliados do Movimento Institucionalista). Nossos ou não, a esses tempos, os dos dias de hoje, costumamos denominar contemporaneidade, embora eu tenha extrema dificuldade em balizar o que me é contemporâneo. Sinto-me contemporâneo de Mozart, tanto quanto de Jeff Buckley ao escutar as composições destes dois cavalheiros; sinto-me, a cada noite em sala de aula, contemporâneo dos nossos antepassados que cobriram as paredes das cavernas com as imortais pinturas rupestres, quando atualizo o mesmo gesto destes borrando a lousa branca (antigo quadro negro de cor verde) com um monte de diagramas e palavras com a pretensão de ajudar no processo de produção de conceitos; sinto-me contemporâneo de muitos de meus intercessores de séculos variados, estes mesmos que vocês costumam ver presentes em meio aos meus escritos.

E a contemporaneidade tem recebido muitos nomes: Modernidade Líquida, por Bauman; Hipermodernidade, por Lipovetsky; Supermodernidade, por Augé; Pós-Modernidade, por Lyotard e Maffesoli; e ainda temos as contribuições de Latour e seu Jamais fomos Modernos. Todas estas análises apresentam elementos coerentes e consistentes, mas que isoladamente não nos dão condições de certeza acerca do que está acontecendo e que nome dar a este recorte de acontecimentos. A angústia do homem se acentua, talvez porque em meio a este furor semiológico e taxonômico ele tenha se esquecido que o nome de uma época é dado quando adotamos a convenção de que aquela época passou e já estamos em uma “nova vibe”. O instrumento predileto da maior parte dos historiadores é o espelho retrovisor, no gesto de olhar para trás científico na busca desesperada por padrões de sossego, “Oh, naquele tempo era assim...”.

Longa Vida às incertezas e ao desassossego! E tudo o mais que nos põe a pensar-sentir. Resistir ao presente, tal como nos sugere Deleuze, buscando na potência da invenção de um mundo possível, neste mundo, por meio de modos de existência em imanência com tudo o quanto há, o bom e o ruim, no aquém e além entre estes, na cartografia das margens dos que estão às margens, na explosão de forças criativas que nos inspiram e nos ajudam sempre no sentido de extrair das fragilidades uma potência.

Da série: Diálogos pela blogosfera: mais um texto que escrevo em resposta a outro post do meu amigo Jason Manuel Carreiro em Não há pensamento raro.