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domingo, 4 de setembro de 2011

Encontre-me num congresso por vir...



... provocar é mais interessante do que simplesmente evocar.



Leituras:

Numa leitura é importante reconhecer as velocidades e suas alternâncias, que podem ser lentas, rápidas e até catatônicas. Muitas vezes se confunde a pressa com as velocidades, e insisto que a pressa é a inimiga das velocidades. Os escritos de Deleuze & Guattari produzem efeitos diversos, que podem ser de esquizoanálise ou não. Leituras apressadas são piores do que sobrevoos rasantes. Conceitos são datados, são algo vivo, são produzidos (inventados), funcionam e morrem. Há casos em que conceitos são simplesmente evocados, mas esvaziados de sentido(s), o que é triste num sentido spinozista, e vale o alerta para a esquizoanálise e também para outras propostas - (gritar "viva o múltiplo", ainda não é fazê-lo, é preciso fazer o múltiplo.).


Dualismos:

Ah! Os dualismos e os riscos de cairmos em dicotomias: há uma esquina digital, outra analógica, dentre outras várias, mas o que interessa entre as esquinas são seus cruzamentos, rupturas. Pouco importa qual a esquina, mas sim o que por ela passa, ou não passa. De repente compor um plano de consistência entre dois e mais mundos e suas esquinas. ... quando o que une um par são suas diferenças, então já não são dois, tampouco apenas três, de repente uma multiplicidade. Uma multiplicidade qualitativa vai além dos números e estoura o par e os dualismos, mudando-os de natureza. Será? A vespa e a orquídea foram convidadas para o congresso?


Gadgets:

Honestamente, não sei o que é um gadget, esta palavra me faz gaguejar, talvez para daí ser capaz de produzir um conceito gadget, cuja duração não vai muito longe. Hoje estamos na onda dos aplicativos, a palavra gadget é escorregadia, difícil de ser aplicada, o que dirá, explicada. Gadgets, há de toda sorte, e podemos defini-los como algo que já surge sem utilidade, banalizado, mas é aí que de repente reside a força de um gadget. Você acha que ele está morto e ele não está mais lá. Ainda não sabemos o que pode um gadget.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Primeiro vieram os rinocer(antes) e depois um punhado de zebras.

Primeiro vieram os rinocer(antes) e depois um punhado de zebras. Este é um texto cifrado, você não vai entender muita coisa. O que importa mesmo são as imagens, e cada vez menos, o que você é capaz de fazer com elas. Num mundo de listas, há animais que têm listras, sendo – por mais incrível que isso possa lhe parecer – muito discretos.

Há também uma espécie de rinocerontes que são unicórnios e nada têm a ver com aqueles cavalinhos mitológicos. Não são animais mágicos, não voam, são pesados (mas não no sentido das arrobas de um boi). O peso dos rinocerontes vem de sua consistência animal.

O desafio é criar conceitos que têm o peso de um rinoceronte e ao mesmo tempo a harmonia e a singularidade das listras de uma zebra.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Nunca vi um albatroz de perto, nem mesmo de longe.


Nunca vi um albatroz de perto, nem mesmo de longe. No máximo vi imagens de albatrozes em algum documentário televisivo, pela internet afora ou em revistas. Logo, eu não seria capaz de escrever sobre albatrozes, não sou um expert no assunto. Posso no máximo escrever com(o) um albatroz quando voa, traçando uma espécie de “line of flight”, conforme Deleuze e Guattari, deixando-me guiar pelo animal de vôo alto e extrema dificuldade em aterrissar. Uma escrita alba-atroz, que decola com dificuldade, deslocando-se no ar com velocidades lentas e rápidas, às vezes mais rápidas do que o vento no qual desliza e se desloca, até a aterrissagem sem jeito, ou um outro nome para a queda.

Encanta-me em especial o Albatroz-errante. Ave dentre as que apresentam maior envergadura e grande poder de vôo. Possuem uma habilidade particular ao voar, a de conseguirem deslizar muito perto da água, sem tocar as ondas, numa espécie de surf voador sem prancha, mas com as sensações que as ondas transmitem ao corpo vibrátil da ave. Ave que voa tal como um planador, embora não seja apenas empurrada pelas correntes de ar, e assim atravessam grandes distâncias. Os albatrozes chegam a atingir velocidades bem mais rápidas do que o vento e possuem bastante autonomia de vôo.

Planar no caso dos albatrozes é encontrar uma saída para voar, pois se eles tentam bater as asas, acabam encontrando muita resistência do ar devido à grande envergadura e com isso perdem forças e facilmente se cansam, aumentando os riscos de uma queda fatal.

A decolagem de um albatroz constitui um espetáculo curioso, pois tal como um avião, eles precisam de uma ampla área de fuga, que funciona como uma pista de decolagem, de preferência localizada em um terreno inclinado e com maior incidência de ventos, para aumentar as velocidades. Eles ficam posicionados no topo de um declínio e de lá começam a correr, esticando bem as asas, lançando as patas, uma após a outra, em um ritmo que você pode dizer de antemão que se caracterizaria pela mais completa falta de ritmo. Como pode isso? Esse movimento charmoso, combinado com algumas batidas das asas, geralmente faz com que eles voem. Geralmente, pois alguns albatrozes chegam a planar a poucos centímetros do chão e a cair algumas vezes antes de estabelecerem um pleno vôo.

Para pousarem na água os albatrozes usam principalmente suas patas, que possuem membranas "entre os dedos", funcionando como pás a escavar a água. Eles tocam com suas patas na água amenizando os atritos de uma reterritorialização. Quando a aterrissagem se dá em terra, eles usam suas caudas e patas como freios, tal como os instrumentos de pouso de um avião. Cada volta a um território exige um funcionamento do corpo e de sua maquinaria em reterritorialização. Não são raras as vezes nas quais os albatrozes se aproximam do local de pouso rápido demais, apressadamente, um erro de cálculo que faz com que eles se tombem de modo assaz desajeitado, batendo com o peito, o bico e as demais partes do corpo no chão, levantando poeira, um tremendo desastre! Daí a pensarmos que o albatroz não sabe aterrissar num mundo de atrocidades, mas ele atinge o chão mesmo assim.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

... green grass fields forever.



... o encontro da flor com o inseto, no caminho da grama.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A pele




Paul Valéry escreveu certa vez “O mais profundo é a pele” e tomada pelas forças desta inspiradora afirmação, a artista plástica mineira Flávia Virgínia nos convidou a uma experimentação através da qual o que está em jogo é aquela pergunta espinosista “o que pode um corpo?”.


A pele de tinta sobre a segunda pele, de tecido, que sob a forma de indumentária cobre a pele do corpo da modelo e seus poros em uma fotografia capturada em meio ao inacabado processo de devir-pintura. Tinta sobre a pele, escorrendo tal como suor a imanentizá-la na tela, na fotografia, na modelo, na indumentária... tinta porosa, tal como a pele, às vezes áspera, às vezes imperfeita, noutras vezes macia... dá uma vontade de tocar, de sentir.


Num instante, lá está, uma metamorfose que nos falseia os sentidos, aliás, a pele é o palco para o falso, pois é ela, ou melhor, através dela, que tombam melhor as noções de dentro e fora: O que está dentro de um corpo (físico, biológico) e o que está fora? A pele transborda os sentidos quando cobre o “ao redor do corpo” e a gente descobre que noções como dentro e fora mais atrapalham do que ajudam.


Textura orgânica, porosa, maior órgão do corpo humano, fronteira derradeira a definir o dentro e fora mais radical do humano, que é o falso. Pele a definir a distância absoluta da qual nos fala Blanchot: a definir, limitar e transbordar. Território de contatos e de fuga, de contágios e travessias, a pele e suas esquinas, seu calor, frieza e odores.


A pele é um tipo de revestimento paradoxal, pois consegue ser ao mesmo tempo superfície e profundidade, que na união dos poros constitui uma rede, entre-poros e suas diversas entradas e saídas que dão acesso a um sem número de coisas que entram e que saem, que atravessam o corpo naquilo que pode um corpo.

Este trabalho é parte do Encontros e Mestiçagens Culturais, exposto no Centro de Artes e Convenções da UFOP em Ouro Preto, Minas Gerais e estará disponível à visitação de 8 a 25 de julho de 2010.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

devenir minoritaire

Tout devenir est un devenir minoritaire.

terça-feira, 4 de maio de 2010

O Rock and Roll e o desassossego


“I believe I can see the future
Cause I repeat the same routine
I think I used to have a purpose
But then again
That might have been a dream
I think I used to have a voice
Now I never make a sound
I just do what I've been told
I really don't want them to come around
(…)
Every day is exactly the same
There is no love here and there is no pain”
Every Day Is Exactly The Same - NIN


O Rock and Roll talvez não venha a salvar o mundo, mas em meio às coisas do mundo, procuro estabelecer alianças com aquilo pode produzir sentido, que nos mobiliza, nos incentiva a pensar, a sentir, e vez por outra é justamente da música que surgem interessantes indagações. Leia o fragmento de letra acima cuja força de um lamento denuncia a despotencialização de uma repetição sem sentido.

Algo parecido aparece no fragmento de letra de música abaixo.


“Always stays the same, nothing ever changes
English summer rain seems to last for ages
(…)
Hold your breath and count to ten
And fall apart and start again,
start again, start again…”
English Summer Rain – Placebo


Agora, cabe mencionar que há um quê de Rock and Roll em certos fragmentos extraídos de filósofos, especialmente os que flertam com o desassossego da produção de diferença.



E se na hora sem sombras um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?
Aforismo 341 – A Gaia Ciência – Nietzsche


O Rock and Roll pode, desde a sua invenção, produzir desassossegos, num sentido Nietzschiano, tal como Wagner à época desse filósofo bigogudo, Nietzsche, que manejava um martelo, tal como se fosse uma guitarra, a quebrar os conceitões absolutos do conhecimento e da cultura hegemônica de sua época. Certos petardos filosóficos são tão potentes quanto os riffs ou solos de uma guitarra: toda uma Pop’Filosofia.

A música e seus perceptos, blocos de sensações, a matéria prima para a evocação de ritornelos... lembro-me de várias cenas do filme Dançando no Escuro, dirigido pelo polêmico cineasta dinamarquês Lars Von Trier, em que Björk, em atuação esplendorosa, cantarola enquanto repete movimentos braçais em uma linha de produção de uma fábrica de panelas. Enquanto cantarola, a personagem experienciada pela cantora-atriz islandesa se projeta, em meio a delírios ou sonhos (escolha o que lhe convier), tal como se estivesse participando de um musical. Daí a traçar uma linha de fuga em que ela sai de cena, sai do corpo da fábrica, da boca da máquina que tritura metais em repetição, ainda na fábrica, sai permanecendo lá, e sem imitar um tipo-dançarino de musical, ao mesmo tempo em que se conectando às forças de uma dança rebelde, a personagem quase cega enxerga um possível naquele mundo de repetição infindável: da produção de diferença, ou a delicada arte de empurrar os impossíveis na invenção de saídas, criando rupturas a trincar o cotidiano quando este nos sufoca e por suas brechas fazer escoar um som, um gemido que seja, em tom celestial.

Sugiro aos leitores que busquem as músicas cujos fragmentos aqui copio, assim como este aforismo nietzschiano acima. O agenciamento entre música e filosofia, perceptos e conceitos, pode devir assaz intenso.

sábado, 17 de abril de 2010

velocidade na escrita sempre movente

Flows, we're nothing but flows. Flows, Flowers, flyes. devir_orquídea_vespa, numa mais valia de código.

Ganhos de velocidade na escrita sempre movente.

São hoje os dedos que não acompanham a velocidade de um pensamento, ou o contrário?


Avançar. Fast-Forward! Fast-Forward! Fast-Forward! Um corpo pode o que pode um corpo. Ou, um corpo já nem bem pode o que pode um corpo. O que pode um corpo? (aquela pergunta cujo retorno faz persistir...repete, insiste, repete) relações de velocidades e lentidões, cujos fluxos configuram, no instante mesmo em que se desmantelam, partículas rítmicas de existência, sempre transitórias, quase sempre arbitrárias.

A velocidade da luz, ambição de outrora, hoje luz da velocidade, mas só há encontro quando uma distância, mesmo que mínima, é instaurada em uma duração. (Distância=Velocidade X Tempo).


A velocidade da luz faz sombra?


Toda uma arquitetura das transparências arredias, hoje aglomerações de sujeitados em espaços de passagem, de deslocamento, que não foram projetados para atrasos de vôo(s). De um projeto ao projétil, uma bala perdida, e o passo que tinha de ser dado, uma vez que se hesita... passo nenhum há. Não há passo dado, não há dado. Não há a priori, mas um tempo presente, ou melhor, há o que há em tempo presente. Um presente dissecado, limado, raspado e isento de futuro, e também de passado, tal como os estóicos o concebem. Transmissões em tempo real? Trans_Missões, nos espaços entre_trans, e entre espaços, lisos e estriados. Apenas expressões de incorporais no plano imanente chamado Intenet.

Capturaram o soco de uma polegada do Bruce Lee, e medindo-o em um laboratório chegaram à conclusão que este golpe alcança a velocidade de 12m/s, o suficiente para atravessar uma quadra de basquete em 1 segundo. Não era um soco tão forte, se comparado ao dos pugilistas peso-pesado, mas o suficiente para machucar, distrair e desequilibrar um oponente de peso, tal qual Chuck Norris.


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Afirmando o devir dos dias de hoje


“De que amanhã...”, frase de Victor Hugo, que dá nome a um livro assinado por Roudinesco e Derrida, servindo-lhes de pretexto para que os dois disparassem a argumentar acerca de questões, as mais diversas, que atravessam e compõem os nossos tempos, com a urgência do hoje, a definirem o porvir. Nossos tempos? Ou estaríamos imersos no exagero da flexibilidade de tempos que já não nos pertencem mais, palco de um conflito sem fim entre Cronos e Aion, que Sennett tão brilhantemente soube problematizar em seu livro “A Corrosão do Caráter”. Tempos que já não nos pertencem ou jamais nos pertenceram, tal como a placa de bar “fiado só amanhã”. Ou tanto pior, tal como em James Bond 007, “O amanhã nunca morre”, frase que bem serviria de slogan para o cenário apresentado por Foucault em sua análise das Sociedades de Disciplina, em que não se termina nada, os processos são abandonados sempre inacabados. Sinto também, como muitos de nós, o mal-estar e a ansiedade em meio aos embates de forças entre regimes de tempo que se atualizam relacionados ao desajuste frente às expectativas em tensão, às promessas e à preguiça (inimiga mortal do bigodudo do martelo), geradores de ressentimento e de má consciência. Tempos que para chamarmos de nossos precisam ser conquistados, roubados, produzidos, comprados, consumidos, exauridos em meio aos contra-tempos (que são modos de ruptura, bolsões de tempos intensos, lufadas de ar, brechas para o pensar-sentir, para o advir de experiências, tal como nos sugerem os aliados do Movimento Institucionalista). Nossos ou não, a esses tempos, os dos dias de hoje, costumamos denominar contemporaneidade, embora eu tenha extrema dificuldade em balizar o que me é contemporâneo. Sinto-me contemporâneo de Mozart, tanto quanto de Jeff Buckley ao escutar as composições destes dois cavalheiros; sinto-me, a cada noite em sala de aula, contemporâneo dos nossos antepassados que cobriram as paredes das cavernas com as imortais pinturas rupestres, quando atualizo o mesmo gesto destes borrando a lousa branca (antigo quadro negro de cor verde) com um monte de diagramas e palavras com a pretensão de ajudar no processo de produção de conceitos; sinto-me contemporâneo de muitos de meus intercessores de séculos variados, estes mesmos que vocês costumam ver presentes em meio aos meus escritos.

E a contemporaneidade tem recebido muitos nomes: Modernidade Líquida, por Bauman; Hipermodernidade, por Lipovetsky; Supermodernidade, por Augé; Pós-Modernidade, por Lyotard e Maffesoli; e ainda temos as contribuições de Latour e seu Jamais fomos Modernos. Todas estas análises apresentam elementos coerentes e consistentes, mas que isoladamente não nos dão condições de certeza acerca do que está acontecendo e que nome dar a este recorte de acontecimentos. A angústia do homem se acentua, talvez porque em meio a este furor semiológico e taxonômico ele tenha se esquecido que o nome de uma época é dado quando adotamos a convenção de que aquela época passou e já estamos em uma “nova vibe”. O instrumento predileto da maior parte dos historiadores é o espelho retrovisor, no gesto de olhar para trás científico na busca desesperada por padrões de sossego, “Oh, naquele tempo era assim...”.

Longa Vida às incertezas e ao desassossego! E tudo o mais que nos põe a pensar-sentir. Resistir ao presente, tal como nos sugere Deleuze, buscando na potência da invenção de um mundo possível, neste mundo, por meio de modos de existência em imanência com tudo o quanto há, o bom e o ruim, no aquém e além entre estes, na cartografia das margens dos que estão às margens, na explosão de forças criativas que nos inspiram e nos ajudam sempre no sentido de extrair das fragilidades uma potência.

Da série: Diálogos pela blogosfera: mais um texto que escrevo em resposta a outro post do meu amigo Jason Manuel Carreiro em Não há pensamento raro.

domingo, 1 de novembro de 2009

Barthes e o devir-ciclista do professor

Em seu texto "Escritores, intelectuais e professores" publicado na coletânea "O Rumor da Língua", Roland Barthes dá ênfase à fala como afecção principal no ofício do professor. Ele menciona que o professor está condenado por meio de sua fala, tal “como um ciclista ou um filme a andar, a prosseguir, se não quiser cair ou encravar-se". A fala, cuja velocidade de enunciação deve ser mantida, tal como a velocidade das pedaladas de um ciclista, tal como a seqüência de imagens em movimento de um filme. Dar consistência a uma fala, tal como Eisenstein nos dizia acerca da dificuldade em manter a coerência e a consistência ao longo da gravação e posteriormente da edição de um filme me faz recordar Antonioni quando este dizia que a verdadeira trilha sonora de um filme são os silêncios entre as cenas. No caso da fala não há como editá-la em tempo real, há? Barthes nos diz que a edição na fala, no instante mesmo em que falamos, se dá por acréscimo, pelo uso de expressões corretivas do tipo: “quero dizer”; “ou melhor” que são acrescidas em meio à fala, já que não podemos apagar o que foi dito. Meu maior receio no tocante às palestras e aulas consiste no apagão, em ficar literalmente sem palavras, especialmente me preocupo com as palavras iniciais, as primeiras pedaladas, as primeiras cenas de um filme-falado, tenho medo de devir-ator de cinema-mudo. Quisera eu ter a potência de ação de um Buster Keaton, de um Charles Chaplin, de um Edward Mãos de Tesoura, e a força de expressão de um cinema-mudo. Mas o ensinar-aprender tornou-se há muito um palco para a verborragia. Falamos demais, em demasia, sobre tudo e sobre todos. Tal como uma aranha estamos condenados a nos lançarmos por meio da teia que tecemos. Não é a aranha que lança a teia, mas sim a aranha que se lança por meio da teia. A aranha conecta sua teia a uma extremidade sólida (parede, galho de árvore, etc.), tal como o professor se gruda aos conceitos, e se lança conectada a sua teia aproveitando o peso de seu corpo que é levado pela corrente de ar até esbarrar n’outro objeto sólido. Unindo um ponto a outro a aranha volta ao ponto de partida e inicia novamente o movimento de lançar o corpo através da rede, inúmeras vezes, até compor sua tela de captura. Sobre isso Deleuze em L’Abecedaire Gilles Deleuze, falando sobre sua teoria dos signos nos diz que “uma aranha: tudo o que toca sua tela, ela reage a qualquer coisa, ela reage a signos. E eles produzem signos, por exemplo, os famosos signos...”. O professor e sua rede, sua teia e as moscas, alunos, conceitos, ruídos, como o contra-ponto a este emaranhado rizomático de linhas de toda sorte.

No tocante à necessidade de trabalhar com a modulação de velocidades em uma aula, como devir-ciclista ou devir-cineasta em meio ao estrato-professor? Não seria o mesmo que devir-aranha?

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

...animando o conceito de devir de Deleuze e Guattari

... um diagrama do conceito de devir em D&G, um punhado de categorias e suas relações. Pretexto para prosseguirmos hoje à noite numa animada conversação iniciada na última terça feira com um bando de psicólogos em formação em Belo Horizonte.

quarta-feira, 18 de março de 2009

visceralogias

... daquilo que é visceral, pensar bovinamente, como nos sugeriu o bigodudo e o seu devir_vaca de uma leitura por ruminação. Há ainda os que dizem que o pensar se dá no, ou através do, cérebro. Acho que estes se esqueceram de um dos erros de Descartes, um dos supostos pais ou padastros da subjetividade e seu fetiche pela glândula pineal. "A alma sentada na glândula pineal". Aliás é aí que o polidor de lentes entra e limpa um pouco a cena e coloca essa alma para correr agenciada num corpo que dança, tal como a suspeita nietzscheana, do pensar do bailarino. É preciso dar piruetas, mesmo as menos precisas.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

pensamento sem imagem_____________devir

As núpcias, ou o que ainda há de suave num encontro antes da captura. Apresento-lhes uma imagem acima, que está longe de ser uma grande novidade para muitos de vocês que acompanham estes escritos. Trata-se de um encontro nada raro entre uma orquídea e uma vespa. Encontro proposto pelo monstro bicéfalo D&G (engraçado isso d'eu insistir em escrever bice_falo, rs.), em seus escritos, nos desafiando com a proposta de que arriscassemos um mergulho assaz vertiginoso na aventura de um pensar sem imagem. Seria isso realmente possível? Tal como o sorriso do gato para Alice? A imagem acima dispara um paradoxo imediato ao servir para nos auxiliar na tarefa de um pensar sem imagem. Uma imagem para pensar sem imagem? Sim, e isso parece bem difícil para nós que não conseguimos deixar de recorrer ao uso imoderado de metáforas, (ou à crença de que tudo que é heterogêneo, especialmente em uma proposição, ou tratar-se-ia de uma metáfora, ou de um disparate), à utilização da interpretação como o método par excelence e da dialética quase como o paradigma imperativo em qualquer processo de pensamento. Oh, pensar, acontecimento por vezes raro num mundo de zumbis e vampiros, esses mortos-vivos que nos cercam, nos atravessam/habitam, dentre os quais somos obrigados a nos incluir também. pois já fomos mordidos e já tivemos nosso sangue sugado. Pensar sem imagem então!!! Isso que se torna cada vez mais raro, pensar, ocorre sem cessar, a todo momento. Ocorre no mais das vezes nas costas do do próprio pensador. Oh, puxa! E ocorre de pensarmos sem imagem também, apesar de que suportamos esta vertigem por pouquíssimo tempo e lá estamos nós lançando mão de uma imagem para representar um movimento. As linhas de fuga nos inquietam, nos atormentam, denunciam encontros entre heterogêneos, as núpcias... e mediante esta intolerável sensação, lá estamos nós, os primeiros a produzir mais linhas, desta vez um pouco duras, a cristalizar o movimento. Eis um vai-e-vem dos mais frenéticos! Tal como a orquídea e a vespa, a desterritorialização e subsequente reterritorialização de um devir-orquídea da vespa e de um devir-vespa da orquídea. a todo instante o que devém?

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

carroça de guerra

"Quando eu digo uma carroça, uma carroça passa pela minha boca." (Crisipo)


... e é extremamente necessário fazer passarem as carroças, mesmo as que estão com as rodas empenadas. Até aquelas que há muito não têm rodas. As que mal se arrastam e também as atoladas. Uma carroça de guerra, tipo estranho-estóico de máquina de guerra, veículo de um nomadismo absoluto, ou melhor, meio de transporte preferido pelos nômades, cujas velocidades no deserto, na estepe, na montanha ou no asfalto não podem mais ser medidas senão pelo efeito de seus paradoxos. "Siga as nuves! Siga as nuvens! encontre água." Eis o mapa do deserto, ou melhor, a sua cartografia... que não é feita jamais de rastros e sim de restos.

domingo, 26 de outubro de 2008

.:devenir_dervishe:.

Pode-se dizer que os "dervish(es)" não fazem nada além de transmutar as forças da dança no plano de imanência Divino. São forças que se colocam a dançar, mais do que dançarinos, o inumano do giro. Uma espécie de devir_dervishe, que o poeta sufi Rumi através de seus belos versos bem insi_nua:

"I died as a mineral and became a plant,
I died as plant and rose to animal,
I died as animal and I was Man.
Why should I fear? When was I less by dying?
Yet once more I shall die as Man, to soar
With angels bless'd; but even from angelhood
I must pass on: all except God doth perish.
When I have sacrificed my angel-soul,
I shall become what no mind e'er conceived.
Oh, let me not exist! for Non-existence
Proclaims in organ tones,
To Him we shall return."

terça-feira, 21 de outubro de 2008

de-voar, de_vém, de-venir, devir

E (ainda) há aqueles que insistem em dizer que a Vida não vale a pena. É desses que eu (mais) tenho pena. A Vida vale a pena sim, quer seja a do escritor, ou a da ave. O escritor hoje pode utilizar outras penas para exercitar a sua escrita (expressão), ainda que a tão duras penas. As asas, as da imaginação, oriundas do sempre-menos-valorizado imaginário, nos permitem “o (mais) danado vôo”. O vôo por levitação, às vezes por Leviathan. As asas do desejo e suas inúmeras penas, isso sem contar com as asas sem penas, (e penas sem asas) ou asas-de-penadas e as máquinas outras de-voar, de_vém, de-venir, devir.