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quarta-feira, 18 de março de 2015

.:::::desterro.



 
 
 
(...) n'um futuro não muito distante, um planeta antes chamado Terra será nomeado Desterro, lá 'viverão' drones, clones-híbridos de outros clones, mezzo-ciborgues e hologramas, ah, e as baratas. Todos interagindo socialmente por meio de interfaces digitalizadas através das quais se poderá fazer de tudo um pouco através de nada. Procrastinar será imperativo. Não haverá livrarias, tampouco livros, apenas vigilância e visibilidade. A linguagem será uma só, traduzida dos diversos idiomas de outrora em um número pré-determinado de verbetes com significados gerando sentidos sempre óbvios. A escrita se tornará motivo de vergonha, sendo substituída pelos excessos da comunicação verbal, que depois serão anulados pela telepatia, até que esta caia em desuso pela falta de assunto em meio ao infinito acúmulo de dados em loop. Os deslocamentos serão por pixels, nossa pele imagético-imaterial, e o dinheiro, bem esse continuará destinado aos poucos 'faraós' de outros tempos, e com eles já terá sido enterrado. O conceito 'smart', valorizado em outros tempos tornar-se-á obsoleto, não se falará mais em Inteligência Artificial, pois aquilo não terá sido algo tão inteligente. O esoterismo substituirá a ciência e os fundamentalismos atropelarão qualquer tipo de interação com o divino. Terão sido criados tantos deuses, todos pertencentes a crenças monoteístas, que já não se saberá bem  a quê ou a quem recorrer em meio ao desespero. The end.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

mezzo amore*



Intermezzo: amor.


“O we will know, won't we?
The stars will explode in the sky
O but they don't, do they?
Stars have their moment and then they die”

(Nick Cave – Are you the one that I’ve been waiting for?)


A astronomia, sempre ela, a ciência que estuda o movimento dos astros, para quando estes se encontram na mais alta velocidade, ou até mesmo parados, em suas órbitas desmedidas de inércia pura. Os astros nos guiam, desde sempre. São estes os nossos modelos: o Sol, a Lua; Marte, Vênus; pai, mãe; e hoje, mais do que nunca, temos celebridades aos montes nos ensinando a viver, a amar. Temos acesso instantâneo às vinte-e-quatro horas do dia-a-dia de insossas celebridades quase-imediatas de um Big Brother Global, (acreditava-se antes que o Big Brother nos vigiava através da tele-tela... hoje quem duvida que somos nós que o vigiamos afoitos por movimentos quaisquer... numa total e patética inversão de papéis.). Nossos modelos estão por aí e se movem sorrateiros sem necessidade de passarela. São magros anoréxicos e, no entanto, fortes halterofilistas que levantam o pesado estandarte da padronização estética do belo corpo perfeito (o corpo pleno). Nas livrarias pipocam manuais, best-sellers, e uma multidão se arrasta e ainda suplica ansiosa: “Dêem-nos as respostas! - Somos pedintes no fim de feira, nos contentamos com os bagaços!”. As grandes tragédias shakesperianas hoje nada valem... é que não há mais tempo, ou, sobra tempo demais. Uma questão de duração! E nesse planeta que habitamos e que num só e mesmo golpe nos habita, quem se atreve a falar de amor? Falar só, basta? Explicar? Perguntas há aos montes... respostas, no entanto... há silêncio, a verdadeira trilha sonora de um filme, já dizia Michelangelo Antonioni. Este cineasta, mestre na manipulação dos tempos em cinema, e da estetização do desencontro humano na grande tela. O quanto nos inspira! O cinema funciona, e isto sabemos bem, tratar-se-ia do divã do pobre, como diria Guattari?


Como pedintes no fim de feira deliciamos-nos com os bagaços. Queremos modelos, mas estes indubitavelmente sempre falham. É preciso falar do amor como de um fracasso, que exige de nós uma experimentação às cegas. É questão de tato, de choque de corpos. A pergunta espinosana: “O que pode um corpo? De que afectos é capaz?” está longe de uma resposta. Mas em sua potência já é capaz de nos arrancar do confortável habitat a que nos acomodamos, e ansiosos estamos, a aguardar o chamado, com o bilhete de senha na mão. Não seremos chamados. É preciso tomar a iniciativa e se atirar. Antes um modo de existência a um modelo. Antes modos de amar a modelos. Sejamos criativos e sigamos sob o signo do desamparo. Não há mapas, a não ser que os construamos. E a pergunta que fica é a mesma que foge: “Como quebrar até mesmo o nosso amor para nos tornamos, enfim, capazes de amar? Como devir imperceptível?”(DELEUZE; PARNET, 1998, p. 59)**

*Texto escrito e anteriormente postado 16/02/2006 por rfelipe em (Old)deluxxxnomadology.

** DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Diálogos. Trad. Eloísa Araújo Ribeiro. São Paulo, Editora Escuta, 1998.