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domingo, 20 de fevereiro de 2011

... green grass fields forever.



... o encontro da flor com o inseto, no caminho da grama.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Dodó o destemido, não necessariamente, corajoso


Deleuze, em uma de suas aulas sobre Spinoza datada de 24/01/1978, ressaltou que quando um filósofo utiliza duas expressões distintas, duas palavras, mesmo que parecidas em sua grafia e nos sentidos que possam evocar, ainda assim, serão duas palavras diferentes, especialmente quando se tratar de conceitos. Ele chamava a atenção para algumas traduções de affectus e affectio, ambas traduzidas como afecção, quando na realidade o polidor de lentes, Spinoza, se referia em seu texto escrito em latim aos conceitos de afeto, para o primeiro e afecção para o segundo. Conceitos com vida própria, cada qual disparando uma multiplicidade de sentidos, embora ambos imanentizados na obra spinozista. Eis um dentre vários exemplos de como as traduções podem fabricar falsos sinônimos.

De minha parte, tenho pensado seriamente em abolir a utilização de sinônimos em meu discurso, pois estes costumam mais complicar do que ajudar na comunicação. Ou talvez restringir os sinônimos a textos literários, poesias... e em escritos, digamos, técnicos, darei urros de longa vida à cacofonia provocada pela repetição do mesmo som de palavra, de uma mesma palavra em loop, a “repetir, repetir, repetir até ficar diferente – repetir é um dom do estilo”, tal como Manoel de Barros. É que gosto mesmo do sabor-saber que nos sugere Barthes, da ambigüidade, do duplo sentido, da vertigem que nos atravessa quando aderimos à multiplicidade como paradigma de expressão e sensibilidade. E uma palavra, cada uma, já traz em si e é ao mesmo tempo atravessada por um oceano multi-planetário de sentidos, uma multiplicidade como universo referencial.

Dodó, o destemido, não foi o que poderíamos chamar de sinônimo de corajoso. Tampouco o Dodó a que me refiro neste texto tem qualquer relação com o jogador de futebol brasileiro cujo apelido é Dodô. Aliás, me informa a Wikipédia, que o destemido Dodó também pode ser chamado Dodô, estando o primeiro termo em português europeu e o segundo brasileiro... ok. Dodó (Raphus cucullatus), também conhecido por Dronte... quantos nomes para esta ave cujas afecções, em virtude das asas curtas e do bico longo e pesado, não contemplavam a potência de ação legítima do voar. Uma ave não-voadora, tal como as nossas galinhas, embora o Dodó seja da família dos pombos, logo, está longe de ser um “sinônimo” de galinha.

Os Dodós habitavam as Ilhas Maurícias, na costa leste do continente africano, e foram extintos na metade do século XVII (coincidentemente o mesmo século de existência de Spinoza) época em que estas aves conviveram com colonizadores portugueses que aportaram por estas ilhas desde o século XVI. Segundo estudiosos, estas aves eram destemidas, não tendo medo das pessoas que chegavam às ilhas nem de seus cães e porcos. Ser destemido está longe de ser corajoso, embora estas duas expressões sejam em muitos casos tratadas como se fossem uma, sinônimo da outra. Ser destemido significa apenas ser desprovido de medo e muitas vezes é do medo que extraímos as potências do que chamamos coragem. Há de se ter coragem inclusive para se traçar uma linha de fuga.

Sendo a afecção em Spinoza o estado de um corpo sofrendo a ação de um outro corpo, é possível que o encontro entre os homens e os Dodós possa ser chamado de um mau encontro, especialmente para estas aves à medida em que concorreu para a diminuição na potência de ação dos Dodós e a extinção da espécie. Um encontro entre dois seres de espécies distintas, os Dodós e seu desengonçado passo, bico pesado e longo a chafurdar pelo chão com o homem, seus cães, seus porcos, seus hábitos e sua fome de colonização.

terça-feira, 6 de abril de 2010

O livro e o tempo


Ainda nos é possível, nos dias de hoje, escrevermos um grande livro, lentamente, endereçando-o a um leitor, digamos, intemporal?

Nossa escrita tem sido cada vez mais desafiada por regimes de tempo sempre vindouros, assaz velozes e vertiginosos. O tempo em seus mais variados regimes, recurso imaterial que o é, não nos pertence à priori e é de suma importância, pois determina a qualidade de nossos encontros. O tempo é par excellence a unidade de medida dos encontros, associado ao espaço, tempo e espaço, e a escrita associada à leitura tem chances de potencializá-los. Quem tem tempo hoje para digerir bovinamente, tal como Nietzsche nos sugeria, um texto aqui, outro acolá? Eis uma possibilidade de encontro com Nietzsche. E à época de Nietzsche, será que seus leitores desfrutavam deste tempo para um “devir-vaca” de seus leitores? Talvez hoje não tenhamos de fato este tempo disponível, mas salvo engano, esta mesma justificativa, a de não termos tempo, já foi utilizada ostensivamente em outras épocas e se perpetuará. Os problemas de hoje a antecipar os destinos do amanhã, enlameados com as marcas do passado, tempos irremediavelmente imbricados pelas vertigens de seus paradoxos com suas tramas de inversões e virtualidades. Tal como Deleuze, cada época tem seus problemas, suas máquinas, logo, o falso saudosismo não nos é de grande valia, pois nos faz perder o foco daquilo que realmente define a nossa sorte, os verdadeiros problemas, chez Bergson. Talvez o que torne um livro algo intemporal e o seu leitor idem, não seja somente a sua escrita, mas sim esta associada à(s) leitura(s), ou os agenciamentos coletivos que este exercício suscita e dispara, com suas virtualidades. A escrita carece de leitura(s). Leitura esta que não se dá de modo imune aos efeitos dos afectos presentes aquém e além das letras. Somos leitores sensíveis, mesmo quando estamos diante das asperezas de um livro estritamente técnico. Sustento também a idéia de que os livros, em quaisquer formatos, escritos hoje ou por vir, serão sempre datados, logo, não acredito que haja qualquer livro atemporal. No limite, penso que mesmo aqueles livros que nos permitem avistar as raspas de um futuro ainda estarão encerrados nas fronteiras do possível no presente. O hipertexto e os inúmeros formatos de livro a serem disponibilizados num Kindle, num IPad, num Smartphone ou parafernálias parecidas, não definem antecipadamente perda de conteúdo, podem sim nos dar a chance de experimentarmos novas formas. Forma e conteúdo! Há debates aqui e acolá sobre a forma-livro que se reduzem ao profético fim do livro e há também olhares atentos dos críticos profissionais e amadores quanto ao conteúdo das escrituras no mundo. Lembro-me de ter lido uma entrevista de Umberto Eco em que ele dizia que se deixasse cair um Kindle do 7º andar de um prédio, seus 500 livros ali arquivados seriam irremediável e imediatamente destruídos. Agora, caso ele deixasse cair um livro no seu formato tradicional, haveria a chance de recuperação de praticamente todo o seu conteúdo. O que me assusta, sem me deixar lançar ao maniqueísmo de dizer que é bom ou ruim, provém do fato de que me parece que estamos hoje mais suscetíveis aos efeitos da lógica dos blogs, digo, dos microblogs, o menor espaço de escrita no mais breve gesto de escritura. Não se trata de uma escrita fragmentária, mas sim de uma escrita que pode perder potência frente à pressa. Tudo sempre a um só fôlego, a uma só braçada, degustação imediata de saberes-sabores perecíveis, que deverão ser digeridos também a uma só garfada. E isso pode exacerbar em nós a pressa, famosa inimiga das velocidades. Esta lógica tem influenciado também as nossas conversações fora da escrita, fora também da Internet.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Bons encontros pelas esquinas de 2010 afora.


Chegamos aqui, 2010, e avistamos um punhado de esquinas pela frente? Nada além, nada aquém. Por que gosto tanto das esquinas? É porque nelas nunca sabemos o que vamos encontrar pela frente.


O que esperar de 2010?


Sou avesso às previsões, prefiro as produções. Penso que não podemos esperar nada menos do que a vontade de ocupar estes territórios, as esquinas de 2010, em que o cruzamento com o inusitado, a possibilidade de experimentações e de encontros heterogêneos, bons encontros num sentido spinozano, podem acontecer.


Sim, mais um ano possível pela frente, eis talvez uma das razões pelas quais é comum sentir um revigoramento nas viradas de ano.


Porém, as viradas de ano costumam se dar repletas de promessas e é aqui que reside todo o perigo. Não podemos nos esquecer dos alertas nietzschianos quanto aos riscos presentes nas promessas não cumpridas que deixamos pelo caminho (lixo pelas esquinas). Podemos padecer em meio a ressentimentos e à má consciência. Isso tudo agravado por um dos maiores inimigos de nosso intercessor bigodudo, a preguiça.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

... um passo além e aquém da esperança


"(...) vem, vamos embora que esperar não é saber. quem sabe faz a hora, não espera acontecer." - Geraldo Vandré

... um passo além e aquém da esperança, rumo à afirmação da vontade ou ao aumento na potência de ação.

É que me lembrei destes versos lendo o seu texto.

Oh memória heurística! Lembro-me, atualizando belas reminiscências neste instante, que meu encanto com as coisas da Vida começou atravessado pelo existencialismo de Sartre, Beauvoir, Camus e Binswanger, Jaspers... Na psicologia existe uma abordagem que é a existencial-humanista, nunca fui humanista, e nem reconheço tanta coerência nesta junção/síntese (uma coisa são duas coisas juntas, outra são duas coisas que se tornam uma... gosto de misturas desde que impuras, tal como Blanchot nos fala acerca da distância absoluta "entre", que não se desfaz, que não se anula... que nos é imprescindível.). Mas o existencialismo, tal como a filosofia nos apresenta este campo, desde as influências de um Kierkegaard e de um Nietzsche (que não são filósofos existencialistas) me atravessou com muita força, já faz alguns anos para trás, e ainda reverbera pelo meu corpo vibrátil. De lá para cá, quantas outras águas, fogos, fluxos, fluidos, excrementos, detritos de toda sorte já não marcaram presença por aqui.

Pois bem, isto sim tem a força de um mantra! Na hora sem sombras... o maior dos pesos, oh puxa! Este bigodudo e seu martelo. Você colocou bem a coisa e estes versos nietzscheanos são de uma força descomunal, o imperativo do desassossego, um convite ao posicionamento ativo-afirmativo frente à Vida.

Das lembranças trago ainda o David Foster Wallace, que você me apresentou e que n'outro dia, um querido amigo, ao telefone me perguntou se já o havia lido. Acho que senti algo que se pode agenciar a estes versos nietzscheanos nos escritos de D.F.W. atravessando o meu corpo. Crítica e Clínica!

Este fim de semana estive lendo mais uma vez em "Espinosa: filosofia prática" de Deleuze o texto "As cartas do mal" correspondência travada entre o polidor de lentes e o jovem Blyenbergh. O jovem Blyenbergh quase consegue tirar o príncipe dos filósofos do sério com indagações acerca do mal, que o polidor de lentes diferencia do mau usando dos argumentos acerca da imanência. Este texto é incrível e reforça o que o polidor de lentes já havia apresentado na Ética como definição para Razão. Razão como a arte de estabelecer bons encontros. Eis outro belíssimo mantra! A arte de estabelecer bons encontros aproxima o filósofo do martelo e o polidor de lentes, aliás, o próprio Nietzsche já se sentiu próximo ao polidor de lentes, tal como numa espécie de solidão a dois, após seu bom encontro com o texto espinosista. Os bons encontros aumentam a nossa potência de ação o que mediante a implacável força do eterno retorno pode nos trazer um peso outro. Peso-mosca, na linguagem dos boxeadores, aqueles que nunca baixam a guarda... ou seria peso vespa-orquídea?



Da série: Diálogos pela blogosfera: mais um texto meu em resposta ao post do meu amigo Jason Manuel Carreiro em Não há pensamento raro.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

pensamento sem imagem_____________devir

As núpcias, ou o que ainda há de suave num encontro antes da captura. Apresento-lhes uma imagem acima, que está longe de ser uma grande novidade para muitos de vocês que acompanham estes escritos. Trata-se de um encontro nada raro entre uma orquídea e uma vespa. Encontro proposto pelo monstro bicéfalo D&G (engraçado isso d'eu insistir em escrever bice_falo, rs.), em seus escritos, nos desafiando com a proposta de que arriscassemos um mergulho assaz vertiginoso na aventura de um pensar sem imagem. Seria isso realmente possível? Tal como o sorriso do gato para Alice? A imagem acima dispara um paradoxo imediato ao servir para nos auxiliar na tarefa de um pensar sem imagem. Uma imagem para pensar sem imagem? Sim, e isso parece bem difícil para nós que não conseguimos deixar de recorrer ao uso imoderado de metáforas, (ou à crença de que tudo que é heterogêneo, especialmente em uma proposição, ou tratar-se-ia de uma metáfora, ou de um disparate), à utilização da interpretação como o método par excelence e da dialética quase como o paradigma imperativo em qualquer processo de pensamento. Oh, pensar, acontecimento por vezes raro num mundo de zumbis e vampiros, esses mortos-vivos que nos cercam, nos atravessam/habitam, dentre os quais somos obrigados a nos incluir também. pois já fomos mordidos e já tivemos nosso sangue sugado. Pensar sem imagem então!!! Isso que se torna cada vez mais raro, pensar, ocorre sem cessar, a todo momento. Ocorre no mais das vezes nas costas do do próprio pensador. Oh, puxa! E ocorre de pensarmos sem imagem também, apesar de que suportamos esta vertigem por pouquíssimo tempo e lá estamos nós lançando mão de uma imagem para representar um movimento. As linhas de fuga nos inquietam, nos atormentam, denunciam encontros entre heterogêneos, as núpcias... e mediante esta intolerável sensação, lá estamos nós, os primeiros a produzir mais linhas, desta vez um pouco duras, a cristalizar o movimento. Eis um vai-e-vem dos mais frenéticos! Tal como a orquídea e a vespa, a desterritorialização e subsequente reterritorialização de um devir-orquídea da vespa e de um devir-vespa da orquídea. a todo instante o que devém?