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terça-feira, 6 de abril de 2010

O livro e o tempo


Ainda nos é possível, nos dias de hoje, escrevermos um grande livro, lentamente, endereçando-o a um leitor, digamos, intemporal?

Nossa escrita tem sido cada vez mais desafiada por regimes de tempo sempre vindouros, assaz velozes e vertiginosos. O tempo em seus mais variados regimes, recurso imaterial que o é, não nos pertence à priori e é de suma importância, pois determina a qualidade de nossos encontros. O tempo é par excellence a unidade de medida dos encontros, associado ao espaço, tempo e espaço, e a escrita associada à leitura tem chances de potencializá-los. Quem tem tempo hoje para digerir bovinamente, tal como Nietzsche nos sugeria, um texto aqui, outro acolá? Eis uma possibilidade de encontro com Nietzsche. E à época de Nietzsche, será que seus leitores desfrutavam deste tempo para um “devir-vaca” de seus leitores? Talvez hoje não tenhamos de fato este tempo disponível, mas salvo engano, esta mesma justificativa, a de não termos tempo, já foi utilizada ostensivamente em outras épocas e se perpetuará. Os problemas de hoje a antecipar os destinos do amanhã, enlameados com as marcas do passado, tempos irremediavelmente imbricados pelas vertigens de seus paradoxos com suas tramas de inversões e virtualidades. Tal como Deleuze, cada época tem seus problemas, suas máquinas, logo, o falso saudosismo não nos é de grande valia, pois nos faz perder o foco daquilo que realmente define a nossa sorte, os verdadeiros problemas, chez Bergson. Talvez o que torne um livro algo intemporal e o seu leitor idem, não seja somente a sua escrita, mas sim esta associada à(s) leitura(s), ou os agenciamentos coletivos que este exercício suscita e dispara, com suas virtualidades. A escrita carece de leitura(s). Leitura esta que não se dá de modo imune aos efeitos dos afectos presentes aquém e além das letras. Somos leitores sensíveis, mesmo quando estamos diante das asperezas de um livro estritamente técnico. Sustento também a idéia de que os livros, em quaisquer formatos, escritos hoje ou por vir, serão sempre datados, logo, não acredito que haja qualquer livro atemporal. No limite, penso que mesmo aqueles livros que nos permitem avistar as raspas de um futuro ainda estarão encerrados nas fronteiras do possível no presente. O hipertexto e os inúmeros formatos de livro a serem disponibilizados num Kindle, num IPad, num Smartphone ou parafernálias parecidas, não definem antecipadamente perda de conteúdo, podem sim nos dar a chance de experimentarmos novas formas. Forma e conteúdo! Há debates aqui e acolá sobre a forma-livro que se reduzem ao profético fim do livro e há também olhares atentos dos críticos profissionais e amadores quanto ao conteúdo das escrituras no mundo. Lembro-me de ter lido uma entrevista de Umberto Eco em que ele dizia que se deixasse cair um Kindle do 7º andar de um prédio, seus 500 livros ali arquivados seriam irremediável e imediatamente destruídos. Agora, caso ele deixasse cair um livro no seu formato tradicional, haveria a chance de recuperação de praticamente todo o seu conteúdo. O que me assusta, sem me deixar lançar ao maniqueísmo de dizer que é bom ou ruim, provém do fato de que me parece que estamos hoje mais suscetíveis aos efeitos da lógica dos blogs, digo, dos microblogs, o menor espaço de escrita no mais breve gesto de escritura. Não se trata de uma escrita fragmentária, mas sim de uma escrita que pode perder potência frente à pressa. Tudo sempre a um só fôlego, a uma só braçada, degustação imediata de saberes-sabores perecíveis, que deverão ser digeridos também a uma só garfada. E isso pode exacerbar em nós a pressa, famosa inimiga das velocidades. Esta lógica tem influenciado também as nossas conversações fora da escrita, fora também da Internet.

terça-feira, 3 de março de 2009

... e o muro caiu. (mais uma vez)

Mais de uma vez, numa sequência de dias, a produção incessante de conceitos extremamente perecíveis, para usos fugazes, tem sido a tônica das animações em sala de aula. "O laboratório", ou o espaço(tempo) apropriado para derrubarmos o Muro de Berlim cotidianamente, este que ao chegarmos já estava lá e instaura continuamente a dicotomia mais triste de todos os tempos, a que mantém separados professor e alunos. Que erro ter dito professor e alunos, por que não dizer aquele bando de lá, um bando qualquer, e parar com essa mania de usar os nomes que também já estavam lá, à espreita, esperando-nos para nos enquadrar. É verdade que alguns não só vibram em favor de tal muro, como são seus maiores pedreiros, serventes de obra e engenheiros, entretidos nesta construção ilusória, a da separação entre as mais belas forças, que são as que animam o ensinar-aprender.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

"Io sono un fortunato" - tal como Fellini

Alinhar à direita_____________________________________________"But how many corners do I have to turn?
How many times do I have to learn?
All the love I have is in my mind?
Well, I'm a lucky man
With fire in my hands
I hope you understand
I'm a lucky man"

(lucky man - verve)

Sentir-se um afortunado, por que não? Por que a culpa, ou tantas desculpas. Afinal, se numa Vida em sua imanência, há destes instantes em que isso pode ser dito, porque é assim, de certo modo sentido, qual a razão de tamanho pudor, uma certa vergonha... por que? Por que? Certa vez um bonachão Federico Fellini disse numa entrevista a um repórter americano, que começou em inglês e lá pelas tantas se italianizou: "Io sono un fortunato" - frase esta que me persegue, de tempos em tempos, talvez por habitar minha memória afectiva trazendo à baila a força afirmativa de um Nietzsche "amigo meu", um tal bigodudo, que nos ensina a vibrarmos sob o amparo do desassossego. Sentir-se um afortunado, ou tanto melhor, tornar-se. Pelas esquinas, encruzilhadas, tipo de espaço-tempo imperativo de travessias e de travessuras, tal como na supracitada canção do Verve, ou simplesmente "I'm a lucky man".

sábado, 20 de setembro de 2008

Um novo tempo, a_pesar dos perigos.


Vamos começar de novo, começar pelo meio. Eis (mais) um daqueles instantes em que uma linha pode botar tudo para perder, afinal, sobre o que tratar-se-á este blog? Ainda não sei. Acredito que este venha a ser apenas mais um blog sobre/sob tudo e sobre/sob nada e mais um monte de coisas também, a se posicionar ao lado do que respira, inspira, pira... e esta é uma mensagem inicial dedicada a todos e a ninguém. Para que mesmo é que serve uma mensagem inicial? Certamente é para disparar qualquer coisa que venha logo a seguir....e aqueles que quiserem seguir, que venham logo.