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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Um suspiro... Oh Vida curta! O que não é intenso não me interessa.

Nas praias da imanência de uma Vida e suas virtualidades, com ondas que quebram na areia, eu tento aprender a surfar com Deleuze, meu professor de surf predileto, ou ao menos a pegar um jacarezinho para não levar um caldo.

A Vida à altura de seus acontecimentos, tal como nos ensinou o bigodudo do martelo, Nietzsche, certamente inspirado na concepção de destino das “fábulas” dos Estóicos: “O guerreiro dá um passo e é atingido pela flecha. Se não morre, passa a viver uma Vida outra, após a flechada e os limites que esta lhe impõe.”. Há ondas violentas mesmo, mas o que nos derruba, no mais das vezes, é o medo que temos de perder o equilíbrio.

O mais delicado e o mais sutil são de uma intensidade absurda. Há ocasiões em que um suspiro se equivale a uma onda. O mar suspira em ritmos variados. Surfar em meio a suspiros pode ser uma tarefa ofegante.

Neste instante, tal como numa onda, e eu nem sei ainda o que move o mar, tampouco o que pode um corpo, mergulho nas águas turvas e geladas da memória, mas as lembranças que chegam tem mais a ver com o futuro do que com o pretérito.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Velocidades e lentidões sob o efeito da pressa

Todo indivíduo encontra-se em permanente modificação, pois os corpos que o constituem estão sempre em relações com outros corpos em diferentes modulações de movimento e repouso, segundo Spinoza, ou de velocidades e lentidões, como prefere dizer Deleuze. É pela velocidade e lentidão que os corpos deslizam entre si mundo afora, afetando e sendo afetados, se individuando no desenrolar de modos de existência. Isso nos permite pensar, seguindo Simondon, que talvez antes de assumirmos uma modulação de indivíduo, nós sejamos um bloco pré-individual, entre outros, constituído por uma composição de velocidades e de lentidões num plano de imanência. Daí a importância de uma investigação também permanente acerca das velocidades e seus efeitos em nós nos dias de hoje. Este tema, o das velocidades, é objeto de pesquisa de Virilio por muitos anos, através da dromologia, ou o estudo dos efeitos da aceleração da velocidade na sociedade. O receio de Virilio seria o de que a aceleração da velocidade na sociedade nos levasse a experimentar a vertigem da instantaneidade nas relações, o que já nos é possível na contemporaneidade. Penso que a pressa pode ser vista como um dentre os possíveis vetores de aceleração intervindo na relação espaço-temporal de deslizamento de nossas velocidades e lentidões. Velocidades são de uma multiplicidade difícil de se cartografar, podendo haver velocidades lentas e rápidas, mas em quaisquer circunstâncias a pressa continua sendo, no meu entendimento, a inimiga das velocidades, lentas e rápidas.

terça-feira, 23 de março de 2010

A pressa e as paixões tristes

A proliferação mundo afora, casa adentro, do que Spinoza chamou de Paixões Tristes, ou seja, as afecções alinhadas com o grau mais baixo de nossa potência me espantam profundamente. São tantos os exemplos presentes na vida cotidiana que eu chego a suspeitar que nós tenhamos uma queda, uma espécie de predileção, por este tipo de filiação reativa.

Quando digo mundo afora, casa adentro, intento derrubar a um só golpe as noções de dentro e fora, tal como tradicionalmente nos são apresentadas. Prefiro a noção de imanência em que muros, paredes, pele, são de extrema porosidade, nos expondo a todo o momento a conexões de toda sorte, aguçando a nossa potência de afectar e ser afectado.

Vivemos num mundo assolado pelo excesso de opiniões pré-fabricadas que se assemelham a um Big Mac, cujo saber é próximo de zero e o sabor é nauseante.

Há uma espécie de automatismo opinativo, o pensamento modulado no regime fast food, ou seja, na pressa, a primeira opinião que vem é a que fica. E o pior, fazem coro a este refrão adultos, jovens, crianças, idosos...

Não me apresso, mesmo porque sou avesso à pressa, a lançar comentários de um falso saudosismo defendendo a tese de que nossos tempos são piores do que os dos nossos antepassados. Ao invés disso, prefiro a idéia de Deleuze de que cada tempo tem suas máquinas, logo, seus problemas (na ambigüidade do termo problema, que não necessariamente remete somente ao pólo negativo).

Não adianta culparmos os aparelhos de Mass Media, especialmente em tempos como os nossos em que as mídias sociais potencializadas pelos apetrechos internéticos e de telecomunicação em rede roubam a cena. Insisto: Não adianta buscarmos culpados, isso nunca funcionou muito bem ao longo da história da humanidade, pois encontrá-los e puni-los não conserta os efeitos danosos de suas intervenções. Encontrar e punir culpados não resolve o problema, funciona tal como um remédio, uma droga, no sentido de cortar ou mascarar os sintomas e não promover um aumento na saúde.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Co-incidências, uma Vida.

Podemos suspeitar que vivemos em um mundo regido pelo acúmulo de incidências, encontros, cruzamento de linhas, componentes de multiplicidades as mais diversas, ora a se chocarem, ora a nem sequer se tocarem.

Do que mais gosto acerca das coincidências? O efeito assombroso que elas nos causam. Tal como se houvesse qualquer coisa para chamarmos de ordem. Pode haver ordens, desordens, algo que seríamos supostamente capazes de traçar, acompanhar, monitorar, controlar... (?) e ao mesmo tempo, após a linha limítrofe de nossas competências cognitivas, um completo descontrole, a ausência mesmo que temida, de razão. Já nem mais bem sei. Pois, desde que Prigogine e Stengers resolveram nos apresentar ao emaranhado de incertezas que o “balé” entre espaço tempo desenha através de uma “nova” espécie de aliança, tremendamente inusitada, perdi o chão – nunca soube voar.

A sincronicidade, tal como nos inspira Jung tem um pouco de quase tudo a ver com as coincidências e se a este conceito atrelarmos a idéia de imanência tão cara ao nosso querido Polidor de Lentes, Spinoza, eu arriscaria dizer que o que as linhas de uma coincidência costumam traçar nada mais é do que o balizamento de um plano de imanência. Alguns balizamentos, quiçá espaços de ultrapassagem.

E por último, mais uma vez, lembro-me que o palco comum a umas tantas coincidências em uma Vida não poderia deixar de ser do tamanho de uma esquina. As esquinas, sempre elas... quantas coincidências, alguns bons encontros, esquinas afora.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Afirmando o devir dos dias de hoje


“De que amanhã...”, frase de Victor Hugo, que dá nome a um livro assinado por Roudinesco e Derrida, servindo-lhes de pretexto para que os dois disparassem a argumentar acerca de questões, as mais diversas, que atravessam e compõem os nossos tempos, com a urgência do hoje, a definirem o porvir. Nossos tempos? Ou estaríamos imersos no exagero da flexibilidade de tempos que já não nos pertencem mais, palco de um conflito sem fim entre Cronos e Aion, que Sennett tão brilhantemente soube problematizar em seu livro “A Corrosão do Caráter”. Tempos que já não nos pertencem ou jamais nos pertenceram, tal como a placa de bar “fiado só amanhã”. Ou tanto pior, tal como em James Bond 007, “O amanhã nunca morre”, frase que bem serviria de slogan para o cenário apresentado por Foucault em sua análise das Sociedades de Disciplina, em que não se termina nada, os processos são abandonados sempre inacabados. Sinto também, como muitos de nós, o mal-estar e a ansiedade em meio aos embates de forças entre regimes de tempo que se atualizam relacionados ao desajuste frente às expectativas em tensão, às promessas e à preguiça (inimiga mortal do bigodudo do martelo), geradores de ressentimento e de má consciência. Tempos que para chamarmos de nossos precisam ser conquistados, roubados, produzidos, comprados, consumidos, exauridos em meio aos contra-tempos (que são modos de ruptura, bolsões de tempos intensos, lufadas de ar, brechas para o pensar-sentir, para o advir de experiências, tal como nos sugerem os aliados do Movimento Institucionalista). Nossos ou não, a esses tempos, os dos dias de hoje, costumamos denominar contemporaneidade, embora eu tenha extrema dificuldade em balizar o que me é contemporâneo. Sinto-me contemporâneo de Mozart, tanto quanto de Jeff Buckley ao escutar as composições destes dois cavalheiros; sinto-me, a cada noite em sala de aula, contemporâneo dos nossos antepassados que cobriram as paredes das cavernas com as imortais pinturas rupestres, quando atualizo o mesmo gesto destes borrando a lousa branca (antigo quadro negro de cor verde) com um monte de diagramas e palavras com a pretensão de ajudar no processo de produção de conceitos; sinto-me contemporâneo de muitos de meus intercessores de séculos variados, estes mesmos que vocês costumam ver presentes em meio aos meus escritos.

E a contemporaneidade tem recebido muitos nomes: Modernidade Líquida, por Bauman; Hipermodernidade, por Lipovetsky; Supermodernidade, por Augé; Pós-Modernidade, por Lyotard e Maffesoli; e ainda temos as contribuições de Latour e seu Jamais fomos Modernos. Todas estas análises apresentam elementos coerentes e consistentes, mas que isoladamente não nos dão condições de certeza acerca do que está acontecendo e que nome dar a este recorte de acontecimentos. A angústia do homem se acentua, talvez porque em meio a este furor semiológico e taxonômico ele tenha se esquecido que o nome de uma época é dado quando adotamos a convenção de que aquela época passou e já estamos em uma “nova vibe”. O instrumento predileto da maior parte dos historiadores é o espelho retrovisor, no gesto de olhar para trás científico na busca desesperada por padrões de sossego, “Oh, naquele tempo era assim...”.

Longa Vida às incertezas e ao desassossego! E tudo o mais que nos põe a pensar-sentir. Resistir ao presente, tal como nos sugere Deleuze, buscando na potência da invenção de um mundo possível, neste mundo, por meio de modos de existência em imanência com tudo o quanto há, o bom e o ruim, no aquém e além entre estes, na cartografia das margens dos que estão às margens, na explosão de forças criativas que nos inspiram e nos ajudam sempre no sentido de extrair das fragilidades uma potência.

Da série: Diálogos pela blogosfera: mais um texto que escrevo em resposta a outro post do meu amigo Jason Manuel Carreiro em Não há pensamento raro.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

How It Feels To Be Something On

... almost every single step, no matter when or where, takes the body where the body is. And where is the body? Some-body... Somebody can tell me, please? & what about the soul? Then we all can walk, step by step, the deepest movement, so unique, somewhere... but wait a while, if almost everything that moves on, moves on, where is the body? What about the soul? Body and soul, like Spinoza wrote, and with Deleuze we take a breath: "l'immanence: une vie !"


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

"Io sono un fortunato" - tal como Fellini

Alinhar à direita_____________________________________________"But how many corners do I have to turn?
How many times do I have to learn?
All the love I have is in my mind?
Well, I'm a lucky man
With fire in my hands
I hope you understand
I'm a lucky man"

(lucky man - verve)

Sentir-se um afortunado, por que não? Por que a culpa, ou tantas desculpas. Afinal, se numa Vida em sua imanência, há destes instantes em que isso pode ser dito, porque é assim, de certo modo sentido, qual a razão de tamanho pudor, uma certa vergonha... por que? Por que? Certa vez um bonachão Federico Fellini disse numa entrevista a um repórter americano, que começou em inglês e lá pelas tantas se italianizou: "Io sono un fortunato" - frase esta que me persegue, de tempos em tempos, talvez por habitar minha memória afectiva trazendo à baila a força afirmativa de um Nietzsche "amigo meu", um tal bigodudo, que nos ensina a vibrarmos sob o amparo do desassossego. Sentir-se um afortunado, ou tanto melhor, tornar-se. Pelas esquinas, encruzilhadas, tipo de espaço-tempo imperativo de travessias e de travessuras, tal como na supracitada canção do Verve, ou simplesmente "I'm a lucky man".