Mostrando postagens com marcador nietzsche. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador nietzsche. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Um suspiro... Oh Vida curta! O que não é intenso não me interessa.

Nas praias da imanência de uma Vida e suas virtualidades, com ondas que quebram na areia, eu tento aprender a surfar com Deleuze, meu professor de surf predileto, ou ao menos a pegar um jacarezinho para não levar um caldo.

A Vida à altura de seus acontecimentos, tal como nos ensinou o bigodudo do martelo, Nietzsche, certamente inspirado na concepção de destino das “fábulas” dos Estóicos: “O guerreiro dá um passo e é atingido pela flecha. Se não morre, passa a viver uma Vida outra, após a flechada e os limites que esta lhe impõe.”. Há ondas violentas mesmo, mas o que nos derruba, no mais das vezes, é o medo que temos de perder o equilíbrio.

O mais delicado e o mais sutil são de uma intensidade absurda. Há ocasiões em que um suspiro se equivale a uma onda. O mar suspira em ritmos variados. Surfar em meio a suspiros pode ser uma tarefa ofegante.

Neste instante, tal como numa onda, e eu nem sei ainda o que move o mar, tampouco o que pode um corpo, mergulho nas águas turvas e geladas da memória, mas as lembranças que chegam tem mais a ver com o futuro do que com o pretérito.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Freud e a psicanálise no centro do ringue novamente.


N’outro dia me indagaram, mais uma vez, se Freud estaria ultrapassado, se a psicanálise freudiana já teria caducado, ou seja, não se aplicaria aos problemas dos nossos tempos. Não é a primeira vez nem será a última que me fazem este tipo de pergunta. Nesta feita, a pergunta me foi apresentada por uma pessoa sem formação em psicologia ou afins e que faz análise (psicanálise) já há alguns anos, o que num primeiro momento me deixou apenas um pouco espantado, mas não totalmente. O que de fato me deixa espantado é a quantidade de pessoas supostamente esclarecidas que conheço, que em meio à avassaladora enxurrada informacional de nossos tempos, não sabem a diferença entre psicologia, psicanálise e psiquiatria (algumas inclusive com formação em áreas afins ao mondo psi). Suponho que parte desse desconhecimento seja fruto das próprias querelas dentro e entre estes campos de formação e atuação componentes do mondo psi. Querelas estas apimentadas e somadas ao gosto refinado comum aos seus representantes de conservarem, à sombra do sigilo, as informações acerca de suas fronteiras de definição, semelhança e diferença. Não vou aqui destrinchar estes campos de formação e atuação devido à vasta e acessível bibliografia a respeito, apenas gostaria de deixar registrado o acontecimento, certo que estou de que isso ocorre com farta freqüência mundo afora.

Vocês devem estar se perguntando a respeito da resposta que dei à referida indagação que me foi feita. Na realidade o que se seguiu foi um animado diálogo, pois conversações acerca de assuntos relacionados ao mondo psi em muito me alegram. O mondo psi é notoriamente um campo minado, em guerrilha permanente... vivo, incandescente. Isso ajuda e atrapalha, trata-se de um contínuo work in progress, pois a construção de objetos de pesquisa, metodologias, conceitos, técnicas, dispositivos, etc. acontece sem cessar, muitas vezes de modo atribulado, mas entre mortos e feridos há muitos avanços a se considerar.

Acerca da psicologia, às vezes me pergunto se a formação do psicólogo não tende a levá-lo ao exagero da solidão (e há vários tipos de solidão!). De fato é pouco comum avistarmos psicólogos trabalhando juntos por longa data (mas qual é mesmo a melhor duração para uma aliança?). No mais das vezes, a defesa do argumento técnico, da capacidade aguçada de perceber aquilo que acontece às costas do observador, cria atritos entre aqueles que trabalham quase o tempo todo no território das singularidades, do infinitesimal, do intangível, do inexato (ciência das singularidades, a psicologia, na grande maioria de seus modos de ação é avessa a generalidades). Considero a psicologia como a ciência dos que não têm pressa (e a pressa como franca inimiga das velocidades).

Com respeito à psicanálise é curioso como de tempos em tempos esta sofre algum tipo de ataque, revés e parafraseando Nietzsche, aquilo que não mata, fortalece... ou pelo menos faz sair dos guetos. Inúmeros livros-bomba, que se diferenciam entre si pelo conteúdo, estratégia e época de publicação, tais como “O psicanalismo” de R. Castel, “O Anti-Édipo” de G. Deleuze e F. Guattari na década de 1970, “L'anti-Freud” de M. Lobrot em 1998, “Le livre noir de la psychanalyse” de C. Meyer em 2005, surgem de vez em sempre a disparar incandescentes discussões, algumas que inclusive, volta e meia, se atualizam em mesas redondas, salas de aula, congressos, etc. Desta feita, o protagonista da vez é o filósofo Michel Onfray, cujos livros e atuação como fundador e animador da Université Populaire de Caen me parecem interessantes. Pois bem, o Sr. Onfray publicou recentemente na França um livro-bomba, que ainda não tive a oportunidade de ler, chamado “Le crépuscule d'une idole. L'affabulation freudienne”. Onfray é um filósofo adequado às máquinas de nossos tempos, sendo afeito às potencialidades midiáticas, tanto que um debate se iniciou pela TV, rádio, Internet, revistas e jornais mundo afora no qual este pensador e personalidades afins ou não à psicanálise têm sido vistas na linha de frente deste aquecido debate. Imediatamente após a publicação deste livro a historiadora e psicanalista Elisabeth Roudinesco, cujo trabalho de escritura também me encanta, publicou o texto “Porquoi tant de haine?” que foi devidamente respondido por Onfray através do artigo “Roudinesco sur Onfray” . Cabe ressaltar que antes da publicação deste livro-bomba um debate em vídeo na revista Philomag entre Onfray e Jacques-Alain Miller intitulado “En finir avec Freud?” já preparava o terreno para o diálogo aquecido do livro por vir, ou seja, já havia fumaça no ar. O debate está lançado novamente.


terça-feira, 4 de maio de 2010

O Rock and Roll e o desassossego


“I believe I can see the future
Cause I repeat the same routine
I think I used to have a purpose
But then again
That might have been a dream
I think I used to have a voice
Now I never make a sound
I just do what I've been told
I really don't want them to come around
(…)
Every day is exactly the same
There is no love here and there is no pain”
Every Day Is Exactly The Same - NIN


O Rock and Roll talvez não venha a salvar o mundo, mas em meio às coisas do mundo, procuro estabelecer alianças com aquilo pode produzir sentido, que nos mobiliza, nos incentiva a pensar, a sentir, e vez por outra é justamente da música que surgem interessantes indagações. Leia o fragmento de letra acima cuja força de um lamento denuncia a despotencialização de uma repetição sem sentido.

Algo parecido aparece no fragmento de letra de música abaixo.


“Always stays the same, nothing ever changes
English summer rain seems to last for ages
(…)
Hold your breath and count to ten
And fall apart and start again,
start again, start again…”
English Summer Rain – Placebo


Agora, cabe mencionar que há um quê de Rock and Roll em certos fragmentos extraídos de filósofos, especialmente os que flertam com o desassossego da produção de diferença.



E se na hora sem sombras um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?
Aforismo 341 – A Gaia Ciência – Nietzsche


O Rock and Roll pode, desde a sua invenção, produzir desassossegos, num sentido Nietzschiano, tal como Wagner à época desse filósofo bigogudo, Nietzsche, que manejava um martelo, tal como se fosse uma guitarra, a quebrar os conceitões absolutos do conhecimento e da cultura hegemônica de sua época. Certos petardos filosóficos são tão potentes quanto os riffs ou solos de uma guitarra: toda uma Pop’Filosofia.

A música e seus perceptos, blocos de sensações, a matéria prima para a evocação de ritornelos... lembro-me de várias cenas do filme Dançando no Escuro, dirigido pelo polêmico cineasta dinamarquês Lars Von Trier, em que Björk, em atuação esplendorosa, cantarola enquanto repete movimentos braçais em uma linha de produção de uma fábrica de panelas. Enquanto cantarola, a personagem experienciada pela cantora-atriz islandesa se projeta, em meio a delírios ou sonhos (escolha o que lhe convier), tal como se estivesse participando de um musical. Daí a traçar uma linha de fuga em que ela sai de cena, sai do corpo da fábrica, da boca da máquina que tritura metais em repetição, ainda na fábrica, sai permanecendo lá, e sem imitar um tipo-dançarino de musical, ao mesmo tempo em que se conectando às forças de uma dança rebelde, a personagem quase cega enxerga um possível naquele mundo de repetição infindável: da produção de diferença, ou a delicada arte de empurrar os impossíveis na invenção de saídas, criando rupturas a trincar o cotidiano quando este nos sufoca e por suas brechas fazer escoar um som, um gemido que seja, em tom celestial.

Sugiro aos leitores que busquem as músicas cujos fragmentos aqui copio, assim como este aforismo nietzschiano acima. O agenciamento entre música e filosofia, perceptos e conceitos, pode devir assaz intenso.

terça-feira, 6 de abril de 2010

O livro e o tempo


Ainda nos é possível, nos dias de hoje, escrevermos um grande livro, lentamente, endereçando-o a um leitor, digamos, intemporal?

Nossa escrita tem sido cada vez mais desafiada por regimes de tempo sempre vindouros, assaz velozes e vertiginosos. O tempo em seus mais variados regimes, recurso imaterial que o é, não nos pertence à priori e é de suma importância, pois determina a qualidade de nossos encontros. O tempo é par excellence a unidade de medida dos encontros, associado ao espaço, tempo e espaço, e a escrita associada à leitura tem chances de potencializá-los. Quem tem tempo hoje para digerir bovinamente, tal como Nietzsche nos sugeria, um texto aqui, outro acolá? Eis uma possibilidade de encontro com Nietzsche. E à época de Nietzsche, será que seus leitores desfrutavam deste tempo para um “devir-vaca” de seus leitores? Talvez hoje não tenhamos de fato este tempo disponível, mas salvo engano, esta mesma justificativa, a de não termos tempo, já foi utilizada ostensivamente em outras épocas e se perpetuará. Os problemas de hoje a antecipar os destinos do amanhã, enlameados com as marcas do passado, tempos irremediavelmente imbricados pelas vertigens de seus paradoxos com suas tramas de inversões e virtualidades. Tal como Deleuze, cada época tem seus problemas, suas máquinas, logo, o falso saudosismo não nos é de grande valia, pois nos faz perder o foco daquilo que realmente define a nossa sorte, os verdadeiros problemas, chez Bergson. Talvez o que torne um livro algo intemporal e o seu leitor idem, não seja somente a sua escrita, mas sim esta associada à(s) leitura(s), ou os agenciamentos coletivos que este exercício suscita e dispara, com suas virtualidades. A escrita carece de leitura(s). Leitura esta que não se dá de modo imune aos efeitos dos afectos presentes aquém e além das letras. Somos leitores sensíveis, mesmo quando estamos diante das asperezas de um livro estritamente técnico. Sustento também a idéia de que os livros, em quaisquer formatos, escritos hoje ou por vir, serão sempre datados, logo, não acredito que haja qualquer livro atemporal. No limite, penso que mesmo aqueles livros que nos permitem avistar as raspas de um futuro ainda estarão encerrados nas fronteiras do possível no presente. O hipertexto e os inúmeros formatos de livro a serem disponibilizados num Kindle, num IPad, num Smartphone ou parafernálias parecidas, não definem antecipadamente perda de conteúdo, podem sim nos dar a chance de experimentarmos novas formas. Forma e conteúdo! Há debates aqui e acolá sobre a forma-livro que se reduzem ao profético fim do livro e há também olhares atentos dos críticos profissionais e amadores quanto ao conteúdo das escrituras no mundo. Lembro-me de ter lido uma entrevista de Umberto Eco em que ele dizia que se deixasse cair um Kindle do 7º andar de um prédio, seus 500 livros ali arquivados seriam irremediável e imediatamente destruídos. Agora, caso ele deixasse cair um livro no seu formato tradicional, haveria a chance de recuperação de praticamente todo o seu conteúdo. O que me assusta, sem me deixar lançar ao maniqueísmo de dizer que é bom ou ruim, provém do fato de que me parece que estamos hoje mais suscetíveis aos efeitos da lógica dos blogs, digo, dos microblogs, o menor espaço de escrita no mais breve gesto de escritura. Não se trata de uma escrita fragmentária, mas sim de uma escrita que pode perder potência frente à pressa. Tudo sempre a um só fôlego, a uma só braçada, degustação imediata de saberes-sabores perecíveis, que deverão ser digeridos também a uma só garfada. E isso pode exacerbar em nós a pressa, famosa inimiga das velocidades. Esta lógica tem influenciado também as nossas conversações fora da escrita, fora também da Internet.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Bons encontros pelas esquinas de 2010 afora.


Chegamos aqui, 2010, e avistamos um punhado de esquinas pela frente? Nada além, nada aquém. Por que gosto tanto das esquinas? É porque nelas nunca sabemos o que vamos encontrar pela frente.


O que esperar de 2010?


Sou avesso às previsões, prefiro as produções. Penso que não podemos esperar nada menos do que a vontade de ocupar estes territórios, as esquinas de 2010, em que o cruzamento com o inusitado, a possibilidade de experimentações e de encontros heterogêneos, bons encontros num sentido spinozano, podem acontecer.


Sim, mais um ano possível pela frente, eis talvez uma das razões pelas quais é comum sentir um revigoramento nas viradas de ano.


Porém, as viradas de ano costumam se dar repletas de promessas e é aqui que reside todo o perigo. Não podemos nos esquecer dos alertas nietzschianos quanto aos riscos presentes nas promessas não cumpridas que deixamos pelo caminho (lixo pelas esquinas). Podemos padecer em meio a ressentimentos e à má consciência. Isso tudo agravado por um dos maiores inimigos de nosso intercessor bigodudo, a preguiça.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Um encontro com Matisse e as forças que este atiça


Não fosse Matisse, “o rei das feras”, “o pintor de paredes”, quem haveria de trazer as linhas de força para a pintura?


Eu sei, bem sei, e você também sabe muito bem, e os acadêmicos e eruditos de plantão sabem melhor ainda do que todos nós juntos, que Matisse não foi o único e nem o será: a trazer as linhas de força para a pintura... e a extrair dessas (das linhas de força e da pintura) as mais diversas sensações. Mas, o que está em jogo aqui não é o saber, e sim o sentir. Não um apelo exagerado ao racional, mas ao calor arrebatador que advém das vísceras, atravessando o corpo, quando nos colocamos em contato com as cores de Matisse e seus blocos de sensações: conjunto de perceptos e de afectos.


- O que você sente num encontro com Matisse e as forças que este atiça?


Aliás, não atice Matisse, a não ser que você queira acabar atiçado. Um corpo pode ser bem definido pela sua potência de atiçar e de ser atiçado, ou melhor, seguindo Spinoza, pela sua potência de afectar e de ser afectado.


Falo de forças aqui no sentido nietzschiano (e não do “falo das forças”). E Matisse, leitor de Nietzsche, soube “encontrar forças”, “produzir forças”, “trabalhar com as forças”, rompendo as sutis fronteiras entre cores e linhas. Colocando as cores e as linhas em um puro agenciamento, de tal sorte que o início de uma se dava no fim da outra e vice-versa, no entrelaçar de distâncias mínimas, entre linhas e cores e entre estas suas forças. Dando ênfase às forças em detrimento às formas, pois para Matisse as formas vinham depois, seriam secundárias, ele nos envolve na dança, em noites árabes, no interior vermelho, na nudez azul... por meio de pinturas, serigrafias, esculturas, desenhos com tesoura. São muitos os modos de expressão experimentados pelo artista a nos convidar ao encontro com suas cores e forças. E aqui me encanta a sua atitude, ao “pintar paredes”, rompendo formatos, forçando as formas na criação de form-atos.


Matisse experimentou as sensações vigorosas de sair da moldura, do modelo, e assim rachar as coisas, extra-va(z)ar as texturas e desfrutar de linhas de fuga criadoras de um sem-número de possíveis. O que é possível num encontro com Matisse não cabe numa parede. E sem um possível não há encontro, você dá com a cara na parede sem cor, nada além, nada aquém.


Texto também publicado no blog Espaço Fluxo e que pode ser acessado através do link.
Imagem: Blue Nude II - H. Matisse

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Crepúsculo dos Ídolos, não o dos vampiros



Crepúsculo? Sim, já li “Crepúsculo dos ídolos” e não me senti nem um pouco vampirizado.



Aliás, com relação a Nietzsche, confesso que fico muito alegre quando vejo em um ônibus, metrô, praça, alguém lendo um de seus livros. Não me importo muito, nestes casos, com a tradução (sei que há melhores, piores e criminosas). Já vi acadêmicos se engalfinharem defendendo traduções (editoras, autores, escolas, etc.)... Sei também que muito foi feito no sentido de arrebentar com a multiplicidade de sentidos presentes na obra deste filósofo, inclusive, isso tudo começou na própria casa do filósofo, graças aos “gostos” e filiações da irmã de Nietzsche, quando esta se empenhou a publicar os livros do irmão, reza a lenda, com algumas intervençõezinhas aqui e acolá. Mas, não sei não.... acho que ao ler-pensar-sentir com Nietzsche é possível transmutar esses entraves, saindo da esfera dos falsos problemas, adentrando as vielas repletas da potência do desassossego. Lembro-me de Deleuze dizendo em tom provocativo em uma de suas entrevistas que todo camponês deveria caminhar por aí com um livro de Spinoza no bolso da jaqueta, acho que o mesmo poderia ser dito a respeito de Nietzsche. Deleuze depois diz que a obra de Spinoza é de grande complexidade, não poderíamos dizer o mesmo acerca dos escritos de Nietzsche? Aliás, foi Nietzsche quem me apresentou a Deleuze, já disse isso aqui em algum comentário p/ trás (e sei que algumas pessoas interpretam isso ao pé da letra. O mesmo ocorre quando digo “Noite passada estive com Nietzsche”, rs.). Eu avançava nos estudos em Nietzsche quando me deparei com o livro Nietzsche de Deleuze. Foi Deleuze também que certa vez usou em um de seus textos a expressão “Meu Nietzsche”, de que gosto muito, não remetendo ao sentido de propriedade, mas sim aludindo ao limite do que pode uma leitura singular de Nietzsche e seus agenciamentos.


Também considero a escola francesa dos anos de estudos Nietzscheanos de 1960 a mais interessante, Foucault, Deleuze, Klossowski... e acrescento o esforço dos surrealistas e outros artistas, dentre os quais destaco Matisse, que ajudaram a tirar Nietzsche do calabouço em que tudo que vinha da Alemanha fora jogado após a II guerra mundial.


Para fechar, certa vez em uma sala de aula, preparando terreno para uma conversa sobre existencialismo, ao perguntar aos alunos quem ali já teria se aventurado na leitura de algum texto de Nietzsche eis que ao fundo um rapaz levanta a mão e diz “Estou acabando a leitura do livro Quando Nietzsche chorou e gostando muito”. Eu poderia me atirar ao chão, me desesperar, arrancar os cabelos... pasmem, ninguém na sala se manifestou contra o rapaz, tampouco eu. Vai saber, aquele texto poderia funcionar como um intercessor e abrir portas para um mergulho na obra do bigodudo do martelo e seus escritos de fato, por que não? Sei de pessoas que começaram a se encantar com a filosofia depois de lerem “O Mundo de Sofia” de Gaarder. Nada mal.





Da série: Diálogos pela blogosfera: mais um texto que escrevo em resposta a outro post do meu amigo Jason Manuel Carreiro em Não há pensamento raro

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Afirmando o devir dos dias de hoje


“De que amanhã...”, frase de Victor Hugo, que dá nome a um livro assinado por Roudinesco e Derrida, servindo-lhes de pretexto para que os dois disparassem a argumentar acerca de questões, as mais diversas, que atravessam e compõem os nossos tempos, com a urgência do hoje, a definirem o porvir. Nossos tempos? Ou estaríamos imersos no exagero da flexibilidade de tempos que já não nos pertencem mais, palco de um conflito sem fim entre Cronos e Aion, que Sennett tão brilhantemente soube problematizar em seu livro “A Corrosão do Caráter”. Tempos que já não nos pertencem ou jamais nos pertenceram, tal como a placa de bar “fiado só amanhã”. Ou tanto pior, tal como em James Bond 007, “O amanhã nunca morre”, frase que bem serviria de slogan para o cenário apresentado por Foucault em sua análise das Sociedades de Disciplina, em que não se termina nada, os processos são abandonados sempre inacabados. Sinto também, como muitos de nós, o mal-estar e a ansiedade em meio aos embates de forças entre regimes de tempo que se atualizam relacionados ao desajuste frente às expectativas em tensão, às promessas e à preguiça (inimiga mortal do bigodudo do martelo), geradores de ressentimento e de má consciência. Tempos que para chamarmos de nossos precisam ser conquistados, roubados, produzidos, comprados, consumidos, exauridos em meio aos contra-tempos (que são modos de ruptura, bolsões de tempos intensos, lufadas de ar, brechas para o pensar-sentir, para o advir de experiências, tal como nos sugerem os aliados do Movimento Institucionalista). Nossos ou não, a esses tempos, os dos dias de hoje, costumamos denominar contemporaneidade, embora eu tenha extrema dificuldade em balizar o que me é contemporâneo. Sinto-me contemporâneo de Mozart, tanto quanto de Jeff Buckley ao escutar as composições destes dois cavalheiros; sinto-me, a cada noite em sala de aula, contemporâneo dos nossos antepassados que cobriram as paredes das cavernas com as imortais pinturas rupestres, quando atualizo o mesmo gesto destes borrando a lousa branca (antigo quadro negro de cor verde) com um monte de diagramas e palavras com a pretensão de ajudar no processo de produção de conceitos; sinto-me contemporâneo de muitos de meus intercessores de séculos variados, estes mesmos que vocês costumam ver presentes em meio aos meus escritos.

E a contemporaneidade tem recebido muitos nomes: Modernidade Líquida, por Bauman; Hipermodernidade, por Lipovetsky; Supermodernidade, por Augé; Pós-Modernidade, por Lyotard e Maffesoli; e ainda temos as contribuições de Latour e seu Jamais fomos Modernos. Todas estas análises apresentam elementos coerentes e consistentes, mas que isoladamente não nos dão condições de certeza acerca do que está acontecendo e que nome dar a este recorte de acontecimentos. A angústia do homem se acentua, talvez porque em meio a este furor semiológico e taxonômico ele tenha se esquecido que o nome de uma época é dado quando adotamos a convenção de que aquela época passou e já estamos em uma “nova vibe”. O instrumento predileto da maior parte dos historiadores é o espelho retrovisor, no gesto de olhar para trás científico na busca desesperada por padrões de sossego, “Oh, naquele tempo era assim...”.

Longa Vida às incertezas e ao desassossego! E tudo o mais que nos põe a pensar-sentir. Resistir ao presente, tal como nos sugere Deleuze, buscando na potência da invenção de um mundo possível, neste mundo, por meio de modos de existência em imanência com tudo o quanto há, o bom e o ruim, no aquém e além entre estes, na cartografia das margens dos que estão às margens, na explosão de forças criativas que nos inspiram e nos ajudam sempre no sentido de extrair das fragilidades uma potência.

Da série: Diálogos pela blogosfera: mais um texto que escrevo em resposta a outro post do meu amigo Jason Manuel Carreiro em Não há pensamento raro.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

... um passo além e aquém da esperança


"(...) vem, vamos embora que esperar não é saber. quem sabe faz a hora, não espera acontecer." - Geraldo Vandré

... um passo além e aquém da esperança, rumo à afirmação da vontade ou ao aumento na potência de ação.

É que me lembrei destes versos lendo o seu texto.

Oh memória heurística! Lembro-me, atualizando belas reminiscências neste instante, que meu encanto com as coisas da Vida começou atravessado pelo existencialismo de Sartre, Beauvoir, Camus e Binswanger, Jaspers... Na psicologia existe uma abordagem que é a existencial-humanista, nunca fui humanista, e nem reconheço tanta coerência nesta junção/síntese (uma coisa são duas coisas juntas, outra são duas coisas que se tornam uma... gosto de misturas desde que impuras, tal como Blanchot nos fala acerca da distância absoluta "entre", que não se desfaz, que não se anula... que nos é imprescindível.). Mas o existencialismo, tal como a filosofia nos apresenta este campo, desde as influências de um Kierkegaard e de um Nietzsche (que não são filósofos existencialistas) me atravessou com muita força, já faz alguns anos para trás, e ainda reverbera pelo meu corpo vibrátil. De lá para cá, quantas outras águas, fogos, fluxos, fluidos, excrementos, detritos de toda sorte já não marcaram presença por aqui.

Pois bem, isto sim tem a força de um mantra! Na hora sem sombras... o maior dos pesos, oh puxa! Este bigodudo e seu martelo. Você colocou bem a coisa e estes versos nietzscheanos são de uma força descomunal, o imperativo do desassossego, um convite ao posicionamento ativo-afirmativo frente à Vida.

Das lembranças trago ainda o David Foster Wallace, que você me apresentou e que n'outro dia, um querido amigo, ao telefone me perguntou se já o havia lido. Acho que senti algo que se pode agenciar a estes versos nietzscheanos nos escritos de D.F.W. atravessando o meu corpo. Crítica e Clínica!

Este fim de semana estive lendo mais uma vez em "Espinosa: filosofia prática" de Deleuze o texto "As cartas do mal" correspondência travada entre o polidor de lentes e o jovem Blyenbergh. O jovem Blyenbergh quase consegue tirar o príncipe dos filósofos do sério com indagações acerca do mal, que o polidor de lentes diferencia do mau usando dos argumentos acerca da imanência. Este texto é incrível e reforça o que o polidor de lentes já havia apresentado na Ética como definição para Razão. Razão como a arte de estabelecer bons encontros. Eis outro belíssimo mantra! A arte de estabelecer bons encontros aproxima o filósofo do martelo e o polidor de lentes, aliás, o próprio Nietzsche já se sentiu próximo ao polidor de lentes, tal como numa espécie de solidão a dois, após seu bom encontro com o texto espinosista. Os bons encontros aumentam a nossa potência de ação o que mediante a implacável força do eterno retorno pode nos trazer um peso outro. Peso-mosca, na linguagem dos boxeadores, aqueles que nunca baixam a guarda... ou seria peso vespa-orquídea?



Da série: Diálogos pela blogosfera: mais um texto meu em resposta ao post do meu amigo Jason Manuel Carreiro em Não há pensamento raro.

sábado, 20 de junho de 2009

"e os deuses riram do dEUS único" Nietzsche


" This elevator only takes one down (...)" dEUS



_________________________________três vivas à música belga. Visite o site de dEUS -_________ http://www.deus.be/


quarta-feira, 18 de março de 2009

visceralogias

... daquilo que é visceral, pensar bovinamente, como nos sugeriu o bigodudo e o seu devir_vaca de uma leitura por ruminação. Há ainda os que dizem que o pensar se dá no, ou através do, cérebro. Acho que estes se esqueceram de um dos erros de Descartes, um dos supostos pais ou padastros da subjetividade e seu fetiche pela glândula pineal. "A alma sentada na glândula pineal". Aliás é aí que o polidor de lentes entra e limpa um pouco a cena e coloca essa alma para correr agenciada num corpo que dança, tal como a suspeita nietzscheana, do pensar do bailarino. É preciso dar piruetas, mesmo as menos precisas.

quinta-feira, 5 de março de 2009

"for someone half as smart...

...you'd be a work of art." - E.Smith

Daí que não se pode prever o que já aconteceu ou não aconteceu, tampouco driblar as flechadas do destino. Destino, tal como os estóicos, um passo dado e a flecha acerta em cheio. Uma Vida outra é o que se põe a viver depois disso. Não adivinhamos o destino, advizinhamos. e como diria o bigodudo, na história da humanidade, o homem nunca se deu bem ao consultar o oráculo.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

"Io sono un fortunato" - tal como Fellini

Alinhar à direita_____________________________________________"But how many corners do I have to turn?
How many times do I have to learn?
All the love I have is in my mind?
Well, I'm a lucky man
With fire in my hands
I hope you understand
I'm a lucky man"

(lucky man - verve)

Sentir-se um afortunado, por que não? Por que a culpa, ou tantas desculpas. Afinal, se numa Vida em sua imanência, há destes instantes em que isso pode ser dito, porque é assim, de certo modo sentido, qual a razão de tamanho pudor, uma certa vergonha... por que? Por que? Certa vez um bonachão Federico Fellini disse numa entrevista a um repórter americano, que começou em inglês e lá pelas tantas se italianizou: "Io sono un fortunato" - frase esta que me persegue, de tempos em tempos, talvez por habitar minha memória afectiva trazendo à baila a força afirmativa de um Nietzsche "amigo meu", um tal bigodudo, que nos ensina a vibrarmos sob o amparo do desassossego. Sentir-se um afortunado, ou tanto melhor, tornar-se. Pelas esquinas, encruzilhadas, tipo de espaço-tempo imperativo de travessias e de travessuras, tal como na supracitada canção do Verve, ou simplesmente "I'm a lucky man".